Dia 3

quarta-feira, outubro 31, 2018

Os livros, as poesias, os filmes e as músicas.
As oficinas de coquetel molotov.
O canivete escondido no bolso.
Os posts de facebook e os memes.
Para cada momento, as armas que parecem ser adequadas.
Deus ajude cada um a saber como e quando usá-las.

Por amor ao caos

terça-feira, outubro 23, 2018

Costumeiramente, a barbárie é empreendida em nome da ordem. Uma ordem mecânica, impositiva, ilusória, intolerante. Uma ordem que castra. Uma ordem que é farsa. Uma farsa que busca organizar o caos que é, em sua forma mais conturbada, aquilo que nos faz humanos.
Por isso, é necessário manifestarmos nosso repúdio à ordem dos pilantras e nosso amor ao caos que nos é próprio.
Meu mais profundo respeito ao caos da pluralidade de ideias e saberes científicos e populares, bem como aos que em nome dele lutaram e sofreram, possibilitando a tantos o acesso ao conhecimento que quebra dogmas e transforma mentes e mundos. Que a ordem do silêncio jamais prevaleça sobre ele.
Meu absoluto carinho ao caos que une universos e cria afetos entre os diferentes, resultando nas surpresas dos amores imprevistos, das uniões inexplicáveis e dos abraços sem lógicas e regras prontas. Que a ordem dos amores em fôrmas, mecanizados e prontos jamais o submeta.
Meu mais sincero zelo ao caos das emoções humanas, das loucuras diárias, tanto as feias quanto as belas, dos universos próprios e profundos daqueles que se desencaixam em um mundo que busca, inutilmente, formular e impor encaixes. Que a ordem rasa da normalidade jamais possa calar a voz e a cor dos nossos loucos.
Minha eterna admiração ao caos da arte e dos artistas que colorem o mundo com sua sensibilidade incompreendida e cheia de tons, aos poetas e suas releituras do mundo em versos, à paz dos sons e ao impacto das imagens que tiram o fôlego. Que a ordem dos impostores, insensível e seca, jamais o padronize com seu cinza sem vida e expressão.
Meu total apoio ao caos da luta pela vida, pelo direito de existir, pela resistência. Que a ordem dos que assistem ao mundo da janela do apartamento, com suas taças de vinho branco nas mãos e panelas (que foram utilizadas no fogão por mãos negras, pobres e nordestinas) amassadas no fundo pela batucada da hipocrisia, não faça morrer o grito de liberdade.
Somos o caos que move o mundo. Somos o caos que incomoda tua ordem de canalhice disfarçada.
Que fechem os sinais. Invadiremos as ruas.
Por amor ao caos.
23/10/2018.

Luto.

sexta-feira, setembro 07, 2018

Hoje, passado um mês desde o acontecido, fui visitar meu pai.
Justifiquei a demora para a família dizendo que os afazeres de jovem recém-concursado morando em outra cidade não me permitiam fazer essa viagem tão rápidamente quanto gostaria. Não era de todo mentira, mas definitivamente não era uma completa verdade. Demorei para reconhecer para mim mesmo que eu não queria fazer essa visita tão cedo. E não era apenas pela dor  - ela, claro, existia - mas pelo desconforto e medo das minhas reações - ou ausência delas.
A última vez que vi meu pai foi há pouco mais de 7 meses. Desde então, nunca mais nos falamos. Eu perguntava por ele quando falava com minha mãe pelo telefone. No início, ela alongava a resposta reafirmando que nós deveríamos voltar a manter alguma relação. Sua voz embargava e isso dóia em mim. Nos últimos meses, entretanto, ela passou a responder com um "bem" cansado e que não transmitia sinceridade alguma. Eu sabia que ele não estava bem. Por outro lado, não queria ouvir isso. Não queria ouvir nada. Não que eu o odiasse, apenas não suportava a necessidade internalizada de que deveria amá-lo. Eu não o amava.
Não foi uma grande surpresa quando recebi, através de um telefonema da minha irmã aos prantos, a notícia de que ele tinha ido embora deste plano. Era esperado por todos. Mas senti um incômodo estranho, um sentimento desconhecido, mas inominável. Não chorei, mas os dias seguintes definitivamente não foram comuns. A rotina era idêntica, com a diferença que agora eu passava os dias esperando as lágrimas que nunca vinham. Tudo ficou cinza e eu não sabia identificar a razão. Não era saudade.
Decidi que precisava visitar seu túmulo para me livrar dessa sensação estranha e sem nome. Precisava, também, livrar-me do julgamento da família e dos amigos que não se conformavam com o desinteresse que eu parecia dar à morte de meu próprio pai. Voltei à minha antiga cidade, aquela que nunca fora meu lar.
Abracei minha mãe e meus irmãos, dei alguns beijos nos sobrinhos e dispensei a companhia daqueles que se ofereceram para me acompanhar até o cemitério. Não sabia o que esperar. Se fosse chorar, que chorasse sozinho. Mas havi o medo, também, de que nada acontecesse. Como explicar a ausência de emoções? Seria imperdoável.
Andei pouco pelo cemitério. Era um lugar pequeno e simples. Era feio. Para mim, não transmitia emoção intensa alguma, só ausências. Em meio a algumas cruzes no chão de grama amarela, havia alguns túmulos belos, em formato de capela, com fotos, flores e homenagens. Até na morte - ou principalmente nela - os homens precisam marcar alguma diferenciação.
 Senti pena. Não dos que estavam ali, mas de nós, os vivos. 
Cheguei ao túmulo daquele com quem vivi a maior parte da minha vida. Era surpreendentemente simples. Ri timidamente ao imaginar que minha mãe deve ter se contido bastante para não arquitetar algo exuberante para a eterna morada de meu pai, mas me repreendi severamente logo depois. A dor daquela mulher deve ter sido tão profunda que, pela primeira vez, ela sequer deve ter tido tempo ou sanidade para pensar em algo dramático e belo para meu pai.
Olhei a lápide por alguns minutos. Nada. A situação era constrangedora por não ser comovente. Esperei as lágrimas e elas não vieram. Tentei: "olá, pai", e me senti um idiota por iniciar uma conversa com um corpo morto e enterrado na terra há um mês.
Aos poucos, fui me forçando a lembrar da figura de meu pai. Não era um homem rude. Era um grande parceiro, cheio de amigos, do tipo que junta a família aos domingos e joga baralho com os homens enquanto as esposas preparam o almoço. Sempre aos risos, dava conselhos e contava piadas. Repreendia os filhos, mas evitava agir com excessiva dureza. Cultivava alguns amores não-oficiais, mas jamais tratou mamãe com menos carinho ou delicadeza do que ela merecia. Era um homem conhecido de todos na pequena cidade, mas modesto como poucos. Reparei mais uma vez na simplicidade de sua atual morada e sorri: papai teria gostado.
Olhei o relógio. 25 minutos se passaram e nenhuma lágrima tinha saído dos meus olhos. Nenhuma emoção mais intensa. Agradeci silenciosamente por não ter trazido companhia e me voltei na direção da saída. Após alguns passos, olhei para trás e disse, em tom de despedida e alívio por colocar um fim àquilo: 
"adeus, pai".
Dei partida no carro em direção à casa de minha mãe (havia dito que almoçaria lá). No meio do percurso, desviei do caminho e segui aleatoriamente pela pequena cidade, talvez num último ato de desespero para achar ali algo que me fizesse retomar a lembrança do homem que criou. Esperava ardentemente alguma emoção intensa, uma reminiscência, qualquer coisa que tirasse de mim a sensação de ser semelhante a uma pedra. 
Num rompante as tão esperadas lágrimas vieram. Estacionei o carro no meio-fio e deixei que elas tomassem conta de mim. Não era um choro de saudade, mas definitivamente era um choro de ausência e luto. Luto por um sentimento natimorto ou assassinado pela ausência de uma paternidade ideal e socialmente exigida. Nós não nos amávamos. Nunca nos amamos. Mas não nos odiávamos. O desprezo de um pelo outro cresceu à medida que nos exigiam uma relação impossível para quem éramos. O laço biológico não era capaz de suprir nada, e nos sentíamos culpados por ele não ser o bastante. Éramos vítimas, os dois. As brigas vieram como uma maneira de encontrar justificativas e uma razão concreta para o que não sentíamos.
Ao fim das lágrimas, uma única lembrança permanecia:
No quarto quente, bonito e colorido, eu agitava as mãos enquanto olhava para aquele homem estranho sentado em uma cadeira de pano fitando meus pés. Altamente debilitado e quase sem fôlego, meu pai, irreconhecível, inspirou profundamente para dizer a frase completa:
"eu prefiro morrer a ter que olhar na tua cara, Gustavo"
"Pois morra", respondi.

O eterno que nunca tem sido.

quinta-feira, setembro 06, 2018

Há um beijo nunca oferecido preso em meus lábios
Há um sexo nunca praticado tirando meu fôlego
Há toques jamais sentidos arrepiando meus pelos
E há um sorriso, tantas vezes admirado, atrapalhando meu sono.
Entre as dores possíveis, a que mais atormenta é a do que nunca foi feito
O erro nunca cometido
 O porvir que nunca chegou
Mas que dói.
Dói ter teu nome tatuado na língua e nunca poder gritá-lo.
Dói ter que disfarçar o abraço desejado
recebendo-te como estrangeiro nos braços que já são teus.
Dói escrever sobre algo que nunca foi, mas que já é eterno.
Você dói em mim.
E eu me canso dessa poesia mal concluída
Porque quero concluí-la em ti. 

Degustadores

quarta-feira, junho 27, 2018

E, num ímpeto, eu decidi entregar a minha vida numa bandeja. 
Não era uma iguaria muito bonita e nem era um prato muito arrumado. Não deu tempo de arrumar. Era bagunçado e tinha gosto de desespero. Eu sabia que ela não iria querer, mas me arrisquei. Não estava pronto, mas eu não podia esperar mais tempo. Era o que eu tinha para servir naquele momento. 
Eu ofereci supondo que ela provaria e ficaria mais tempo. Com isso, abri mão de todas as minhas crenças - e da possibilidade de esperar a massa cozinhar um pouco mais para servi-la a um outro frequês que chegasse mais tarde, na hora certa, ou que tivesse paciência para esperar.
Mas eu queria ela. Era ela. O momento era aquele. E ela não esperaria.
Então eu peguei a panela fervente e joguei o conteúdo ardente e meio cru na bandeja. Eu sabia que ela não terminaria de degustar aquilo, mas precisava que ela ficasse mais um pouco enquanto provava.
E ela não ficou.
A recusa me tirou o fôlego. Chorei quando a porta bateu: ela se foi e nem pagou a conta. 
Mas voltei para a cozinha. Dentro de alguns minutos, joguei fora a massa crua (e agora fria), tirei alguns ingredientes da dispensa e acendi o fogão. Temperando tudo com lágrimas, recomecei a cozinhar para o freguês certo, mas sabia que não daria tempo. Eu tinha estragado o prato que era dele.
Mas não fazia diferença. Naquele momento, só a ação de cozinhar importava. 
E eu estava cozinhando.
Mais uma vez.

quarta-feira, junho 27, 2018

"Eu me revelo, como já se disse, com meu rosto e meus olhos e, se alguém quisesse me tomar por Minerva ou pela sabedoria, eu o haveria de desiludir sem palavras, por um só olhar que é o espelho menos mentiroso da alma. Não uso disfarce, não dissimulo no rosto o que não sinto no coração. Sou sempre igual a mim mesma. Não ponho máscara, como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com pele de leão. Que se vistam com disfarces quanto quiserem, que suas orelhas sobressalientes revelarão sempre um Midas oculto."
Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam.
O texto acima é parte de um discurso da Loucura. Sim, é ela quem fala. Rotterdam escreve e publica. Não, não faz muito sentido que eu venha a postar isso no Facebook, mas nós estamos falando de loucura, não é mesmo? Logo veremos que as ações loucas costumam fazer bastante sentido, até.
Nesta segunda-feira, ouvi de uma das pessoas que mais admiro no mundo que eu deveria assumir minha loucura. Foi um conselho de uma louca para outra louca inexperiente e confusa. Eu não pude deixar de estranhar o conselho. Não que eu não concordasse que a loucura deve ser assumida, mas porque eu, em minha ingenuidade, achava que já tinha assumido a minha. Não conseguia ver meus disfarces. Ora, ao longo de toda a minha vida até agora (19 anos, para ser mais clara), o adjetivo que mais me foi atribuído foi o de louca. Eu, uma louca, buscava entender as razões para isso. Perdia noite de sono procurando entender o que me fazia diferente dos normais. Por fim, acabei por perceber que esse adjetivo parecia sempre estar ligado às pessoas que agiam, falavam e pensavam fora dos "padrões". Era louco quem ria alto e não se preocupava com o que os outros iriam dizer; louco quem falava verdades, dúvidas, inseguranças, sentimentos; maluco de pedra quem questionava coisas que já estavam certas para a maioria. Eu, coitada, questionava tudo, brigava por tudo, ria de tudo, chorava mais ainda. Louca.
Aos poucos, fui me apaixonando por essa loucura. Percebi que ela me fazia um pouco diferente e eu gostava disso, apesar das dores e da solidão que isso me trazia. Comecei a defender a bandeira dos loucos. E foi essa minha maluquice que me colocou aqui na universidade e, mais especificamente, no curso de História. Segunda-feira eu pude entender, pela primeira vez, a razão pela qual eu consegui me encaixar um pouco aqui. Segundo a tal pessoa, esse é um lugar de loucos. Claro, ninguém com o juízo perfeito gastaria a cabeça tentando entender o que aconteceu no século XVII. Faz todo o sentido. E eu acabei por enxergar pela conversa que, no fundo, eu louvava a loucura enquanto me forçava a ser normal. Não adianta. quem aqui se encaixa está estupidamente fora dos padrões de normalidade
Mas aqui também é um lugar de sábios, aspirantes a sábios ou metidos a sábios. E eu acho que esse foi o grande erro da Loucura em seu discurso: passou tempo demais separando-se da sabedoria, como se tivesse dela nojo, buscando mostrar-se superior. Ora, pelos próprios argumentados apresentados por ela ao louvar-se em detrimento da sabedoria, fica claro que quem busca ser "mais sabido" e se dispõe a enfrentar as consequências disso não pode ter o mínimo de juízo na cachola. Saber dói demais. Reconhecer sua própria estupidez diante do mundo e se entregar às delícias da busca pelo conhecimento sem garantia alguma para tal é um troço bem estúpido de se fazer.
No fim, somos todos uns loucos. E penso que a Sabedoria e a Loucura são duas amantes briguentas. Por isso, acho que a Loucura se absteve de contar parte da história quando fez seu tal discurso. Devia estar brigada com a Sabedoria. tudo bem, que briguem para disputar quem é superior a quem. Esse deve ser um relacionamento difícil. No fundo, devem entender que, quando se juntam, o orgasmo advindo dessa transa torna tudo mais divertido e apaixonante.
Quanto a mim, desisto. Não me encaixo no mundo dos normais. E tudo bem: tal mundo não me satisfaz.
Assumo minha loucura.

quarta-feira, junho 27, 2018

Da série: teoria e prática
Ao retornar para a escola onde fiz meu Ensino Médio para realizar o Estagío de Observação, tive um diálogo estranho com um estudante. Quando perguntei a razão pela qual ele não buscava ingressar na UFC quando terminasse o EM, obtive a resposta de que a UFC nunca tinha lhe passado pela cabeça.
Vamos para Bourdieu: "o desejo razoável de ascensão através da escola não pode existir enquanto as chances objetivas de êxito não forem mínimas" (A Escola Conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura). O único motivo pelo qual eu não me assustei demais com a resposta que o menino me deu foi porque eu vim daquela escola. Conheço a desesperança dos estudantes de lá. Sei que muitos nem sequer consideraram a UFC ou UECE como opção porque acrediatavam que não passariam ou, se passassem, não conseguiriam se manter lá dentro. É uma escola pública regular, com um público estudantil bastante variado, mas constituído principamente por gente pobre que vai precisar ajudar com o baião de dois em casa assim que sair da escola. As famílias exigem isso. Bem compreensível.
Mas me assustou demais ter acesso ao PPP e ver que a META de média escolar no ENEM em 2015 (ano em que eu ingressei na universidade) era 480,49. Isso não é nada agradável. Como exigir de um estudante de uma escola como essa tenha perspectivas com algo que soa irreal para a realidade dele? Se a escola é um espaço em que esperanças são constantemente construídas, como fazer com que determinadas possibilidades não pareçam ser fantasiosas para esses meninos e meninas?
"Ah, mas você..." eu uma ova! Eu fui, sim, um caso à parte, assim como pouquíssimos outros estudantes que conheço. E isso tá errado. Tá errado porque não se trata só de "força de vontade". Comparar casos de moleques que vieram de realidades absurdamente diferentes sem levar isso em consideração é injusto e irresponsável, assim como querer interpretar toda a situação a partir de dois ou três casos destoantes. As perspectivas são outras, as esperanças são outras, os sonhos são outros. E a escola participa SIM dessa construção. A comunidade participa. A família participa.
Ensinar é lidar com esperanças. E às vezes tem coisa demais matando elas.

Talvez

sábado, junho 16, 2018

Eu acho q eu te amo.
E eu tenho muito medo de que isso seja um equívoco absoluto ou só um sentimento confuso mas
Eu acho que eu te amo
E a cada vez que eu penso nisso meu corpo insiste em estremecer um pouco e minha cabeça gira alguns graus porque 
Eu acho que eu te amo
E penso que eu deveria gritar isso 
Mas não sei se é justo contigo deixar você saber e não saber o que fazer depois que você souber que 
Eu acho que eu te amo 
Mas não há certezas porque não há razão envolvida nisso 
São só calafrios e tremores e desejos e confusão e prazer e
 Eu realmente acho que eu te amo 
Mas se não for verdade eu não posso me responsabilizar porque eu definitivamente não sei definir e identificar o amor 
E é exatamente por isso que
Eu acho que eu te amo
 E eu não estou perdidamente apaixonado e não sinto que vou morrer sem você 
Mas sem você eu também não sei se consigo ter algo que possa ser chamado de vida 
E é assim que 
Eu acho que eu te amo 
E já escrevi e li e pensei e gritei e fiquei sem dormir mas não consigo e não posso ter certeza de nada Só que
Eu acho que eu te amo
 Mas achismos não servem pra nada e eu não sei se você é capaz de sentir o mesmo por mim e se não for eu não saberei o que fazer porque 
Eu juro que acho que eu te amo 
E nesse achismo eu fico dia e noite e tenho medo de soltar qualquer dia e qualquer hora quando estiver perto de você que
 Eu te amo. 

Eternos.

sábado, junho 16, 2018

Nós sabíamos que não seria pra sempre. Soubemos disso desde o momento em que decidimos que queríamos que fosse. Mas, mesmo sabendo disso, desafiamos a razão  e nos opusemos à ordem das coisas.  
Sabíamos que não seria eterno. Ainda assim, compartilhamos sorrisos discretos e trocamos olhares nem tão discretos assim. Em nossa rebeldia, decidimos correr riscos aos risos abafados. Companheiros em nosso mundo próprio, deixamos nossa fantasia fluir e vivemos essa peça romântica como atores que se apaixonam pelo roteiro.
Sabíamos que não poderia durar, mas insistimos em viver cada momento como nosso romance particular com final imprevisível.  Mas era previsível.  Não duraria, não poderia. Mas construímos sonhos bobos e cuspimos promessas ao vento. Sabendo que não seria eterno, juramos que seria e assinamos contratos. Escolhemos cuidadosamente os nomes dos filhos amados que jamais teríamos.  E os amamos. Amamos cada detalhe daquelas crianças abortadas ainda no pensamento.
Mesmo sabendo que não seria para sempre, investimos tudo nesse projeto falido. Rimos de piadas sem-graça, fizemos guerra de travesseiro e assistimos ao nascer do sol com uma admiração silenciosa e compartilhada pela natureza.
Resistimos à força do tempo. Quando a tempestade chegava e o teto ruía, dormíamos ao relento e nos aquecíamos com o calor do nosso corpo. No dia seguinte, reconstruíamos tudo com promessas  e ilusões,  mesmo sabendo que um dia a matéria-prima acabaria. 
E acabou. A matéria-prima, o teto, o tempo, o romance, a peça, nós. Não foi eterno porque não poderia ser. 
Mas nós fizemos ser eterno enquanto pôde. 

Nua

segunda-feira, maio 28, 2018

Eu me despi pra você.
Tantas e tantas vezes
Na minha mente, nas minhas palavras, nos meus sonhos.
Eu revelei minha intimidade, meus segredos, minhas imperfeições
E senti vergonha.
Senti - e ainda sinto - vergonha por ter me despido aos olhos de um desconhecido
Eu deveria ter corrido, fugido, me resguardado.
Mas fiquei nua
E suportei sozinha o desconforto de me sentir suja
Herege, pecadora, imunda
Mas continuei nua
Fui me despindo das vestes da alma ao me imaginar me despindo das do corpo
Com a angústia prendendo o suspiro e travando o gemido na garganta
Aquela mistura estranha de prazer e medo que se abraçam, se enamoram, se trançam
transam
e dão à luz a perdição, o horror a culpa e o deleite
Você não se despiu pra mim
Observou minha nudez, minha vergonha, meu temor
Minha alma nua foi teu toféu - nem sequer precisou ver o corpo
A alma bastava porque era tudo
E o corpo você já possuía - era teu da maneira mais profunda
Nos meus sonhos secretos você o tocava - provoca arrepios, suspiros, taquicardia
Éramos duas almas completamente imersas em nossa perversão
sacrilégio, profanação do corpo sagrado, blasfêmia contra a criação
abominação
meu corpo te pertencia, mas o teu nunca foi meu
e no desespero de ter me doado eu despertava
vestida, limpa, pura
Só o suor molhando os lençois e meus pêlos eriçados denunciavam meu crime
Testemunhas da minha perdição secreta
Traidores ingratos no meu próprio corpo
Traição!
 Mostravam-me que ele já não me pertencia - perdi meu controle
 Na insolência de fazer uso dele sem que me pertencesse, fugi da culpa
Uma criminosa incomum
Não suportei o peso do meu delito
Era teu: que fosse a ti entregue
Mas a recusa foi minha pena
Bastava-te possuí-lo, não precisava fazer uso
E eu, infratora, abracei minha pena
Condenada a guardar tua posse
Como cuidadora da terra que nunca vê o dono
Permaneceremos na eterna espera - eu e tua terra
 Eu, tua terra
Sempre para ti despida.

A Geração de vidro

segunda-feira, maio 28, 2018

Já ouvi diversas vezes sobre um certo "problema geracional" contemporâneo. Ora, sendo parte dessa geração, decidi entender melhor qual seria esse problema. Percebi que parece que uma das principais características que identificam nessa geração - a minha - é a sensibilidade. Seríamos uma juventude adulta extremamente sentimental, com uma carga absurda de subjetividade; uma geração que sofre, emociona-se e se enraivece excessivamente: a "geração de vidro". Ora, ora, o vidro. Um troço difícil de se lidar, não é mesmo? Uma coisa que nos causa temor porque quebra com facilidade. Mas não é só isso: o vidro, ao ser quebrado, faz muito barulho e se espalha de forma que pode vir a ferir pessoas próximas. Essa é a razão pela qual eu achei o nome perfeito. Acho que somos, de fato, a geração de vidro.
Mas vamos lá: a principal característica atribuída a nós - a sensibilidade exarcebada - me causa uma certa desconfiança. Entendo a sensibilidade como uma experiência histórica vivenciada de forma complexa. Isso mesmo, para mim, as pessoas vivem a sensibilidade de formas diferentes ao longo do tempo. E falo aqui de sensibilidade no singular como forma de generalização, mesmo. O mais correto seria falar de sensibilidadES, sim. Mas, quando ressaltam o quanto somos sensíveis, estão falando de várias sensibilidades como uma só porque o que querem dizer é que somos sensíveis das mais variadas e possíveis formas: emocionalmente, academicamente, profissionalmente, fisicamente, psicologicamente.... querem dizer que somos pessoa de vidro: facilmente quebráveis. Talvez estejam certos. Mas minha confusão reside no fato de que essa habilidade de sentir de maneira tão intensa não me parece ser uma característica que teve estréia na nossa geração, assim como não é uma característica exclusiva do vidro ser facilmente quebrável. Mas claro, isso pode sim ser algo inédito que minha geração está experimentando, por enquanto não sou capaz de saber. De fato, pode ser que nossa neecessidade de dar visibilidade aos problemas que deveriam ser extintos tenha, para alguns, criado os problemas. O que eu quero dizer é que se você não entende que algo é um problema, o problema não existe para você. Mas, ao descobrí-lo, ele acaba sendo criado na sua experiência. Nesse sentido, nós teríamos criado problemas novos e novas formas de se sensibilizar com eles, de sofer por eles. Faz algum sentido ou é pós-moderno demais? Tanto faz, só estou fazendo suposições na madrugada, me deixem perder o bom senso de análise.
Mas, vamos direto ao ponto do que eu quero dizer, amém? Para mim, mera mortal que fica observando os conflitos geracionais porque na verdade não se sente parte de geração alguma (embora esteja me obrigando a escrever esse texto usando mt a terceira pessoa do plural, mas acho q devo tentar resolver isso na terapia) a grande característica dessa geração e a que nos faz semelhantes ao vidro não é a facilidade de se espedaçar, mas a capacidade de fazer barulho, chamar atenção, acordar os vizinhos, causar vergonha. E sinto que é esse o grande incômodo que causamos. Como assim? Nós nos demos voz. Agarramos e defendemos o direito ao grito de dor e de sofrimento, à exposição do sentimento. Na verdade nós nos viciamos em nos expor, daí nossa outra semelhança com o vidro: a transparência. Pois bem, essa transparência e esse barulho agoniante que fazemos ao nos quebrar causa um incômodo muito grande. Em quem? Sinceramente, ando percebendo uma grande reação por parte da geração 1990 (falo da geração de adultos dos anos 1990, não da que nasceu nessa década), mais do que de qualquer outra. A necessidade que essa geração tem de expor nosso sentimentalismo reforça aquela minha ideia de que esse sentir demais não é uma característica nossa. Parece-que a geração 90 sofreu tanto quanto nós com suas experiências, que viveram tão intensamente e dolorosamente quanto nós. Mas uma diferença é clara: ao louvar tanto a capacidade que tiveram de lidar com os problemas sem escândalo e criticar nosso barulho, eles acabam parecendo os grandes afetados, mas, como mudos que receberam tardiamente a voz, ainda não sabem pronunciar bem as palavras. Deixem-me tentar ser mais clara: aparentemente, o direito ao grito de dor não foi dado a eles. Sentiram e sofreram calados, alcançaram suas conquistas sem poder expressar o que sentiram no processo. Agora, estão tendo de lidar com uma geração que grita, chora e se expõe. O resultado é uma espécie de conflito constante nos mais variados espaços. E, eu sinto dizer, parece haver um certo sentimento de recalque por parte da geração de jovens adultos daquela década, daí essa necessidade incontrolável de dizer que passaram por tais coisas sem fazer barulho. Nós, a geração de vidro, fazemos barulho demais.
Mas, nesse caso, não poderíamos ser a geração de alumínio? Não. O alumínio faz barulho, mas continua inteirinho. Nós nos quebramos memo. A gt se estraçalha. A cabeça fica desgraçada, precisamos de terapia, remédios e raio que o parta. O problema é que, ao nos quebrarmos, nossos cacos atingem quem nos rodeia. No fim, estamos todos sempre sangrando ou sujos de sangue. Uma geração difícil de se lidar, essa. Mas até que é bonita. No fim, é a que as donas de casa usam pra servir água às visitas.

Cúmplices

segunda-feira, abril 30, 2018

Da série "Pq eu amo Glee".
Intercampi não tão lotado (coisa rara). Eu sentada (coisa rara tb) no banco de um dos extremos da última fileira de bancos do ônibus. Começa a tocar Don't Stop Believin' (versão orignal, não a do Glee).
"Just a small town girl
Livin' in a lonely world
She took the midnight train going anywhere"
Eu não resisto e começo a bater com as mãos nas pernas seguindo o ritmo da música.
"A singer in a smoky room
The smell of wine and cheap perfume
For a smile, they can share the night
It goes on and on and on and on"
Passo para a próxima etapa: começo a dublar a música.
"Strangers waiting
Up and down the boulevard
Their shadows searching in the night
Streetlights, people
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night"
Não consigo me controlar e deixo a voz sair, cantando baixinho para não pagar muito mico enquanto esqueço partes da letra. Começo a ouvir uma outra voz tímida. Olho para o lado acompanhando o som. Meu olhar se encontra com o de um moço sentado a duas cadeiras de distância de mim. A essa altura, termina o solo e começa a parte mais emocionante da música:
"Don't stop believin'
Hold on to the feelin'
Streetlights, people"
Como companheiros de mico, aumentamos um pouco o volume da voz.
Um sorriso de cumplicidade encerra o dueto.

Pássaros

segunda-feira, abril 30, 2018

Eu sempre fui uma admiradora do vôo dos urubus.
-Viviane, isso é urubu! - foi o que me disse um amigo quando eu, ainda na infância, chamei sua atenção para os pássaros negros que enchiam o céu. Lembro-me de não saber muito bem o que responder, então passei meu tempo pensando nas razões pelas quais a cena ficaria menos bonita por ser protagonizada por urubus. Ora, no céu não se pode ver a feiura do bicho carniceiro. Não se vê a cabeça nua, as feições assustadoras, o bico feito para dilacerar a carne. Longe disso, só se consegue ver o contraste do céu azul com as muitas manchas negras que voam como se estivessem em uma dança macabra e desorganizada. Hoje, toda vez que vejo essa dança, obrigo-me a pensar na cena que se constrói abaixo dela. Algum bicho moribundo e ferido ou já morto, deitado no chão, enquanto um redemoinho de carniceiros voa acima dele.
Os urubus anunciam a morte quando o aroma dela não consegue chegar até nossas narinas. Talvez sua dança macabra seja uma forma de demonstrar respeito ao defunto cuja carne se converterá em vida. Talvez seja um tributo à vida e morte daqueles cujo fim nunca seria anunciado, não fosse os predadores de sua carne morta e o funeral por eles encenado.
Para mim, essa ideia faz com que a cena fique ainda mais bonita.

Sobre amores e livros roubados

sábado, abril 14, 2018

Uma das coisas que eu penso em fazer antes morrer é devolver os livros que roubei para as escolas de onde os roubei.
Sim, eu era uma ladra de livros na infância.
Uma criminosa bastante habilidosa, até.
Roubei não um ou dois, mas vários livros das escolas onde estudei. Como? Experimente estudar em 7 escolas durante a vida escolar e precisar sair de várias delas sem explicações ou tempo para despedidas. Quando eu começava a sentir o cheiro da mudança, alugava os livros e, convenientemente, não tinha tempo para devolve-los.
Dessa forma, consegui manter comigo excelentes livros. Boa parte da minha atual biblioteca pessoal (que ainda cabe numa caixa de papelão) eu adquiri dessa forma criminosa e desonesta, tomando posse de bens públicos.
Hoje eu me perdoei pelos meus crimes.
Entenda: eu nunca tive muitos amigos nas escolas em que estudei. Nem tive tempo pra consolidar amizades. Os livros ocuparam esse lugar na minha infância. A descoberta dos prazeres da leitura foi também a descoberta de uma forma leve e deliciosa de encontrar refúgio. Com meus passaportes apoiados entre as pernas, eu viaja para todos os lugares possíveis, conhecia novas palavras e novos sentimentos, aprendendo a dar nome a coisas que eu nem sabia que poderiam ser nomeadas. Permitia-me sentir de tudo: ria, chorava, odiava, amava. Era tudo real e intenso demais para mim, e eu preferia considerá-los mais reais que minha própria vida.
Dessa forma, acabei criando com alguns desses livros uma relação de afeto tão forte que não me permitia separar deles. Tinha que leva-los comigo. Eis o motivo dos meu crimes.
Mas, ao longo da minha vida, fui descobrindo o prazer de conversar com alguém sobre essas obras e sentir em sua fala a mesma paixão que eu tinha. Assim, desejando cada vez mais sentir esse prazer, passei a indicar e emprestar livros para amigos. Aos poucos, minha biblioteca de livros furtados começava a diminuir à medida que eles iam sendo furtados pelas pessoas a quem eu os emprestava. Dessa vez, eu estava criando os ladrões. Mas isso n me importava muito. Eu sabia o que eles sentiam e o que os levava a fazer isso. Sentia satisfação ao saber que alguém havia se apaixonado tanto quanto eu por uma obra a ponto de nunca mais me devolvê-la. Acredito que, assim como eu, eles também descobriram mais tarde o prazer de possibilitar a outros essa paixão e acabaram tendo de se desfazer de seu objeto de amor. Exatamente como eu. Acho que amar demais tem um pouco disso: você se torna um pouco egoísta por n qrer se desfazer momento algum do objeto de amor, mas, conforme amadurece um pouco, você se dá conta de que é injusto demais prender algo tão maravilhoso só contigo e impedir que outras pessoas tenham acesso a isso. Há coisas que são boas demais para serem só nossas.

Fenômeno

quinta-feira, março 22, 2018

Da série: Histórias de vida no ponto de ônibus contadas de maneira informal no facebook.
Hoje. Cinco da tarde. Um senhor estava por perto observando a rua. Abri um livro e comecei a ler enquanto esperava o busão.
Senti uma cutucada no ombro e levantei a cabeça para olhar a pessoa que falava cmg:
-Tá esperando o ônibus, é? Pra... hum....
-São Gonçalo. - respondi e abri um sorriso, surpresa com a abordagem de alguém que nem me conhecia.
-Isso. Fica um monte de gente esperando ele aqui. Chega umas cinco e quinze. - disse o tal senhor, enquanto se afastava.
Dois minutos depois, senti outra cutucada.
- O ENEM vai mudar né? Agora a redação vai ser no primeiro dia, num é? Primeiro vestibular da Federal a ter redação, eu fiz.Todo mundo tava com medo, era coisa nova, né?
-E como foi? - perguntei, desistindo da leitura.
-Ora, me dei bem. Eu sou um fenômeno! Vou te contar: na minha carreira, de militar, eu tinha feito todo tipo de curso pra subir de nível, sabe? Mas n tinha nem o primeiro ano do primário! Se eu tivesse de ser enforcado por n ter o primário, eu ia, acredita? Pois bem, um dia, meu superior (homem de anel no dedo!) me chamou e disse "a partir de hoje vc vai começar a estudar!". Falou assim, como se fosse meu pai! Aí eu disse "é o quê?", e ele me falou: "olhe, aqui dentro vc é o Papa. Aqui vc sabe de tudo. Mas qndo vc sair daqui e te perguntarem o nível da tua escolaridade, qndo vc disser q n tem nem o primário, vão dizer q vc não é nada. Vão te chutar, vão dizer q vc é um bosta. Então, a partir de hj, vc vai estudar." Depois do almoço, ele me levou para um desses cursos q a gente estuda e termina as coisas cedo. Quando eu cheguei lá, a moça olhou pra mim e perguntou pra qm era o curso. Claro, eu já era homem feito, cabelo ficando branco, um homem desse ir estudar não tinha sentido, né? Mas eu fiz. No primeiro ano, depois das provas, eu tava lá com um certificado na mão. Eu não acreditei. Pra qm não tinha nem primário já ter um certificado é muita coisa. Mas continuei. Depois eu consegui o certificado de Ginásio! Pra qm n sabia de nada, tava eu lá, com dois certificados na mão, assinados por todo mundo. Aí eu fiquei sabendo q ia ter o vestibular da Federal, e decidi fazer pra tirar a prova dos 9. Vou te contar, eu sou um fenômeno! Éramos 800 para 50 vagas para pedagogia aí na Federal. A prova objetiva classificou 100 dos 800. Aí depois vinha a redação.A redação fazia todo mundo de todos os cursos, Medicina, tudo qnto era curso. Eu fiz. No dia do resultado, foi o dia em q eu descobri q aí só tem analfabeto. Fu olhar a lista, tava eu lá: 5º lugar na colocação. Aí eu pensei "não é possível. Como é q pode um negócio desse? Os outros são tudo uns analfabetos, então, só pode". Pra vc ver como eu sou um fenômeno.
-E, então, o senhor se formou?
-Não, não. Olha, nessa altura, eu já era tesoureiro de uma unidade, sabe? E fazia um outro curso lá de carreira. Aí as três coisas juntas não dava, né? Quem quer demais não consegue nada. Deixei isso pra lá. Mas o q importa é q eu tirei a prova dos 9, mostrei como sou um fenômeno.
O busão chegou e eu me despedi rindo. Passei a viagem inteira pensando em um certo senhor audacioso que cutucou uma estranha só para contar uma história. Verdade ou não, o contador de histórias do ponto de ônibus é, sem dúvidas, um verdadeiro fenômeno.

O fim de si mesmo

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Há poucos dias um menino cuja existência eu ignorava fez uma publicação incomum em um dos maiores grupos secretos do facebook, um grupo focado principalmente no humor. A publicação era uma foto de um pulso com um corte profundo próximo a uma veia. A legenda era algo como "vocês também vão se matar mas esquecem os óculos e acabam não conseguindo acertar a veia?". Era madrugada, umas duas da manhã. Eu ri com a publicação, assumo. O fato de um menino estar tentando se matar durante a madrugada e lembrar de fazer uma última piada consigo mesmo é um pouco engraçado (ao menos pra mim q tenho um humor negro pesadão). Seria o tipo de coisa que eu faria. Os comentários eram coisas como "isso dá ban", "ban noite". Quando tentei comentar percebi que a publicação tinha sido removida. Massa, entrei no perfil do garoto (que parece ser uma pessoa bem divertida) e conversei com ele inbox, avisando que a publicação tinha sido removida. Ele me respondeu, mas a conversa foi curta demais. Terminou com um "já achei meus óculos". Continuei mandando mensagens, mas o rapaz não visualizou mais. Mandei solicitação de amizade, mas n houve resposta. Todo dia eu vou lá no perfil dele olhar se alguém fez algum post sobre seu suicídio ou sobre a tentativa. Absolutamente nada. Nenhum post, nenhuma foto, nenhum comentário que dê uma pista do que aconteceu. Ele ainda n visualizou minhas mensagens.
Hoje é dia 09 de janeiro de 2018 e eu já fiquei sabendo de vários casos de suicídio de pessoas que nunca conheci. Tive conhecimento deles por grupos de facebook mesmo. Algumas dessas pessoas avisaram, outras não. Hoje vi um post de uma mãe que lamentava o suicídio do amigo do filho. Ela se perguntava como eles não foram capazes de perceber que ele estava tão mal.
Enfim, Eu ainda estou aflita com o caso do menino. Imaginar que talvez eu tenha sido a última pessoa com quem ele conversou é assustador. O facebook tem dessas coisas, né? A gente aprende a amar, odiar e se preocupar com pessoas que nunca vimos. Talvez o mais interessante seja a aproximação que essa rede social faz entre pessoas que têm poucas coisas em comum, muitas vezes de idades, regiões, classe social e culturas diferentes, mas que são conectados por alguma razão e passam a confiar uns nos outros. Mas eu tenho muito medo do quanto nós abrimos mão do bom e velho olho no olho, talvez porque esse tipo de contato seja difícil demais. É bem mais fácil gritar pensamentos suicidas na internet, refugiando-se atrás de um computador e rindo, que dizer todas essas coisas encarando alguém a quem se ama e que irá sofrer com tudo isso.

25/12/17

terça-feira, janeiro 02, 2018

Vou deixar de lado essa discussão sobre o Natal ser ou não uma festa pagã e tentar relembrar um pouco do homem que o mundo cristão celebra hoje. Não, não é o Papai Noel. É Jesus, mesmo. O Verbo vivo feito carne (Jo 1:1), concebido pelo Espírito Santo de Deus e gerado por uma virgem prometida em casamento. Recebeu como pai terreno um carpinteiro chamado José, passando, assim, a integrar uma genealogia que remete a uma viúva que, fingindo-se prostituta, transou com o próprio sogro para ter descendência (Gn 38). Também fez parte da descendência real de Davi, um “homem segundo o coração de Deus”. As profecias sobre seu nascimento e morte estão em vários livros do Antigo Testamento. O destino do cordeiro pascal já estava traçado: viveria justamente e se entregaria como sacrifício puro pelos erros de todos, possibilitando o acesso direto destes ao Pai. 
Mesmo sendo filho de Deus e descendente de reis, o menino foi deitado em uma manjedoura ao nascer, não havendo lugar para ele nas hospedarias, o que não evitou que fosse louvado: foi visitado por pastores e magos guiados por uma estrela, recebeu presentes caros, e seu nascimento foi divulgado como a chegada do Rei dos Judeus (Lc 2; Mt 2:1-12). Essa divulgação colocou a família em maus lençóis, tornando-os fugitivos do Estado (Mt 2:13-23). O menino e seus pais foram, até a morte de Herodes, imigrantes no Egito, sendo acolhidos na terra que escravizou seus antepassados. Jesus integrou, assim, uma das famílias menos tradicionais que já existiu: gerado pelo Espírito Santo no útero de uma virgem prometida, adotado por um carpinteiro de descendência real, fugitivos do Estado e estrangeiros em terra estranha.
Após o retorno, o Reis dos Judeus foi criado na cidade de Nazaré, Galiléia. Terra desprezada, de povo mestiço, da qual nunca veio profeta algum, e de onde se acreditava não vir nada de bom (Jo 1:46; 7:52). Pouco se sabe sobre sua infância, mas se diz que, aos doze anos, foi esquecido por seus pais em Jerusalém, ficando naquela cidade por três dias, após os quais foi encontrado no Templo conversando com autoridades religiosas. Pelo que diz na Bíblia, pareceu surpreender-se quando questionado por sua mãe sobre o porquê que ficara na cidade, deixando-os preocupados procurando-o (Lc 2:41-52). Por volta dos trinta anos, Jesus iniciou seu ministério de forma bastante simbólica. Após batizar-se nas águas e ser tentado por 40 dias pelo próprio Satanás, que lhe ofereceu poder e todos reinos da terra, além de incitá-lo a mostrar seu próprio poder e fazer uso da sua glória, Jesus adentrou uma sinagoga e, tomando os escritos de Isaías, leu a passagem que diz: “O Espírito está sobre mim, pelo que me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres, enviou-me (para curar os quebrantados de coração); para proclamar libertação aos cativos e para dar vista aos cegos; para pôr em liberdade os oprimido, para proclamar o ano favorável do Senhor.” Fechando as escrituras, Jesus declarou cumpridas aquelas palavras. Após dizer mais algumas afirmações, o filho de Deus foi expulso da cidade e levado ao monte para ser de lá jogado, mas conseguiu fugir (Lc 4:1-30).
Seu primeiro milagre foi bastante “terreno”: em uma festa de bodas, transformou água em vinho para que não faltasse a alegria dos convidados (Jo 2:1-12). Ao longo de seu ministério, reuniu 12 discípulos, seguidores mais próximos, com personalidades marcantes e bastante diferentes (impacientes, orgulhosos, precipitados, hipócritas, violentos) ensinando-os. Reuniu, ainda, seguidores de vários tipos e classes. Percorreu diferentes cidades, não hesitando em andar no meio dos desprezados. Curou cegos de nascença, paralíticos e leprosos, atribuindo a cura à fé destes. Comeu com cobradores de impostos e pecadores (Mc 2:13-17). Ensinou através de parábolas, no meio do povo, buscando tornar a mensagem acessível aos que ouviam, sem qualquer formalidade. Fez atividades durante o dia de sábado, enraivecendo os conservadores ao afirmar que “o sábado foi instituído para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2:23-27). Questionou normas sociais, tradições e padrões de comportamento, ressaltando a hipocrisia daqueles que mais eram apegados a elas (Mt 15:1-20; Lc 11:37-54). Não teve receio ao expor feridas daquela sociedade. Chegou a ser acusado por escribas de estar endemoninhado (Mc 3: 20-30). Pregou a igualdade e a irmandade como poucos, afirmando uma família que não se faz por laços sanguíneos, mas sim pelo viver e fazer a vontade de Deus (Mc 3:31-35). Em seu ministério conversou com as mulheres não como se fossem coadjuvantes, mas como sendo tão protagonistas quanto os homens. Chamou-as para perto, falava diretamente com elas, ensinando-as como a qualquer um (Lc 8:1-3; Lc 10:38-42). Em meio a uma multidão que o tocava, notou o toque (não apenas com as mãos, mas em espírito) de uma mulher que sofria de hemorragia havia 12 anos (Lc 8-40-48). Uma das maiores responsáveis por propagar suas palavras foi uma samaritana, de terra desprezada pelos judeus, absolutamente fora dos padrões exigidos para a época, com a qual conversou a sós, sentado junto a um poço (Jo 4:142). Louvou a fé de uma mulher estrangeira, siro-fenícia, que os discípulos viam como um estorvo (Mc 7:24-30; Mt 15:21-28; Lc 8:40-48). 
Jesus ensinou sobre amor, compaixão, paciência e entrega aos outros (Lc 6:27-36). Criticou severamente a caridade para orgulho e louvor próprio, feita com o objetivo de elevar o que a pratica, mas louvou as ações feitas por amor e entrega (Mt 6:1-4; Lc 10:25-37;). Criticou ainda, os que se exaltam por seus atos, considerando-se superiores aos demais (Lc 18:9-14). Denunciou a paixão pelas riquezas e alertou dos perigos que ela traz (Lc 12:15-21, 32-34, 18:18-30; Mt 6:24). Irou-se profundamente quando viu transformarem a casa de Deus em um mercado. Em sua trajetória andando com pecadores, deixava-os com uma mensagem que parecia mais um conselho que uma ordem: “vai-te, e não peques mais”
Com toda a sua força e poder, Jesus chorou não apenas uma, mas três vezes citadas nos textos bíblicos. Chorou quando morreu seu amigo Lázaro, que ele amava profundamente (Jo 11: 32-35); chorou por Jerusalém, lamentando a ignorância de seu povo e a sua futura destruição (Lc 19:41-44); chorou quando orava ao Pai, sofrendo e pedindo que aquele cálice fosse dele afastado, mas sempre priorizando a vontade divina(Lc 22:39-46). 
Conhecendo seu traidor e sabendo do seu destino, Jesus nada fez para evitar o que iria acontecer. Sofreu calado, entregando-se à morte. Foi traído por um de seus seguidores mais próximos com um beijo. Curou um dos homens que estavam ali para prendê-lo (Lc 22:50-51). Preso, foi negado três vezes por um amigo que o acompanhou durante todo o ministério. Em nome da ordem, foi acusado e julgado por seu próprio povo, que preferiu um homicida a um desordeiro, “agitador do povo” (Lc 23:5, 14, 18-19, 25). Escarneceram-no, torturaram-no e, por fim, o crucificaram. Jesus foi chorado pelas mulheres que o seguiram, acompanhando-o durante toda a crucificação (Lc 23:27-29, 49; Mt 27:55,56). No auge de seu desespero, o filho de Deus sentiu-se desamparado, abandonado pelo próprio pai (Mt 27:46). Por fim, morreu pedindo perdão pelo povo que o matou. Após três dias, ressuscitou, cumprindo suas palavras. Apareceu primeiramente a Maria Madalena, escolhendo-a para anunciar aos discípulos o seu retorno (Jo 20:11-18). Ressuscitando, Cristo cumpriu toda a Lei e as Escrituras, inaugurando agora um novo tempo baseado no seu sacrifício eterno e insubstituível: o tempo da Graça.
O ministério de Jesus foi revolucionário, mas de forma bastante peculiar. Sua revolução partia do individual para o coletivo, acontecendo primeiramente no caráter daqueles que o ouviam e o seguiam, para assim mudar a realidade social. É uma revolução que começa no coração, despertando o amor da criatura para com seus diferentes, percebendo-o como iguais, fazendo-o enxergar as injustiças e sentir a necessidade de mudá-las. O amor de Cristo não era e não pode ser representado como um amor que apenas observa e denuncia, pois é um sentimento que gera incômodo e, por isso, exige ação. É um amor que mexe, transforma a ordem, bagunça as idéias e, por isso, incomoda. Portanto, não é uma revolução de paz e calmaria, mas uma revolução que traz guerras e divisões (Mt 10:34-36). O amor de Cristo não se conforma com as injustiças e não se alegra com a dor dos que o rodeiam. E é um amor tão profundo, inconfundível e particular que Jesus se permitiu ir um pouco além das Escrituras: se o Velho Testamento nos diz que devemos amar uns aos outros como amamos a nós mesmos, ele manda que nos amemos como ele nos amou (Jo 13:34).