Por isso, é necessário manifestarmos nosso repúdio à ordem dos pilantras e nosso amor ao caos que nos é próprio.
Meu mais profundo respeito ao caos da pluralidade de ideias e saberes cientÃficos e populares, bem como aos que em nome dele lutaram e sofreram, possibilitando a tantos o acesso ao conhecimento que quebra dogmas e transforma mentes e mundos. Que a ordem do silêncio jamais prevaleça sobre ele.
Meu absoluto carinho ao caos que une universos e cria afetos entre os diferentes, resultando nas surpresas dos amores imprevistos, das uniões inexplicáveis e dos abraços sem lógicas e regras prontas. Que a ordem dos amores em fôrmas, mecanizados e prontos jamais o submeta.
Meu mais sincero zelo ao caos das emoções humanas, das loucuras diárias, tanto as feias quanto as belas, dos universos próprios e profundos daqueles que se desencaixam em um mundo que busca, inutilmente, formular e impor encaixes. Que a ordem rasa da normalidade jamais possa calar a voz e a cor dos nossos loucos.
Minha eterna admiração ao caos da arte e dos artistas que colorem o mundo com sua sensibilidade incompreendida e cheia de tons, aos poetas e suas releituras do mundo em versos, à paz dos sons e ao impacto das imagens que tiram o fôlego. Que a ordem dos impostores, insensÃvel e seca, jamais o padronize com seu cinza sem vida e expressão.
Meu total apoio ao caos da luta pela vida, pelo direito de existir, pela resistência. Que a ordem dos que assistem ao mundo da janela do apartamento, com suas taças de vinho branco nas mãos e panelas (que foram utilizadas no fogão por mãos negras, pobres e nordestinas) amassadas no fundo pela batucada da hipocrisia, não faça morrer o grito de liberdade.
Que fechem os sinais. Invadiremos as ruas.
Por amor ao caos.
23/10/2018.
Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam.
O texto acima é parte de um discurso da Loucura. Sim, é ela quem fala. Rotterdam escreve e publica. Não, não faz muito sentido que eu venha a postar isso no Facebook, mas nós estamos falando de loucura, não é mesmo? Logo veremos que as ações loucas costumam fazer bastante sentido, até.
Nesta segunda-feira, ouvi de uma das pessoas que mais admiro no mundo que eu deveria assumir minha loucura. Foi um conselho de uma louca para outra louca inexperiente e confusa. Eu não pude deixar de estranhar o conselho. Não que eu não concordasse que a loucura deve ser assumida, mas porque eu, em minha ingenuidade, achava que já tinha assumido a minha. Não conseguia ver meus disfarces. Ora, ao longo de toda a minha vida até agora (19 anos, para ser mais clara), o adjetivo que mais me foi atribuÃdo foi o de louca. Eu, uma louca, buscava entender as razões para isso. Perdia noite de sono procurando entender o que me fazia diferente dos normais. Por fim, acabei por perceber que esse adjetivo parecia sempre estar ligado à s pessoas que agiam, falavam e pensavam fora dos "padrões". Era louco quem ria alto e não se preocupava com o que os outros iriam dizer; louco quem falava verdades, dúvidas, inseguranças, sentimentos; maluco de pedra quem questionava coisas que já estavam certas para a maioria. Eu, coitada, questionava tudo, brigava por tudo, ria de tudo, chorava mais ainda. Louca.
Aos poucos, fui me apaixonando por essa loucura. Percebi que ela me fazia um pouco diferente e eu gostava disso, apesar das dores e da solidão que isso me trazia. Comecei a defender a bandeira dos loucos. E foi essa minha maluquice que me colocou aqui na universidade e, mais especificamente, no curso de História. Segunda-feira eu pude entender, pela primeira vez, a razão pela qual eu consegui me encaixar um pouco aqui. Segundo a tal pessoa, esse é um lugar de loucos. Claro, ninguém com o juÃzo perfeito gastaria a cabeça tentando entender o que aconteceu no século XVII. Faz todo o sentido. E eu acabei por enxergar pela conversa que, no fundo, eu louvava a loucura enquanto me forçava a ser normal. Não adianta. quem aqui se encaixa está estupidamente fora dos padrões de normalidade
Mas aqui também é um lugar de sábios, aspirantes a sábios ou metidos a sábios. E eu acho que esse foi o grande erro da Loucura em seu discurso: passou tempo demais separando-se da sabedoria, como se tivesse dela nojo, buscando mostrar-se superior. Ora, pelos próprios argumentados apresentados por ela ao louvar-se em detrimento da sabedoria, fica claro que quem busca ser "mais sabido" e se dispõe a enfrentar as consequências disso não pode ter o mÃnimo de juÃzo na cachola. Saber dói demais. Reconhecer sua própria estupidez diante do mundo e se entregar à s delÃcias da busca pelo conhecimento sem garantia alguma para tal é um troço bem estúpido de se fazer.
No fim, somos todos uns loucos. E penso que a Sabedoria e a Loucura são duas amantes briguentas. Por isso, acho que a Loucura se absteve de contar parte da história quando fez seu tal discurso. Devia estar brigada com a Sabedoria. tudo bem, que briguem para disputar quem é superior a quem. Esse deve ser um relacionamento difÃcil. No fundo, devem entender que, quando se juntam, o orgasmo advindo dessa transa torna tudo mais divertido e apaixonante.
Quanto a mim, desisto. Não me encaixo no mundo dos normais. E tudo bem: tal mundo não me satisfaz.
Assumo minha loucura.
Vamos para Bourdieu: "o desejo razoável de ascensão através da escola não pode existir enquanto as chances objetivas de êxito não forem mÃnimas" (A Escola Conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura). O único motivo pelo qual eu não me assustei demais com a resposta que o menino me deu foi porque eu vim daquela escola. Conheço a desesperança dos estudantes de lá. Sei que muitos nem sequer consideraram a UFC ou UECE como opção porque acrediatavam que não passariam ou, se passassem, não conseguiriam se manter lá dentro. É uma escola pública regular, com um público estudantil bastante variado, mas constituÃdo principamente por gente pobre que vai precisar ajudar com o baião de dois em casa assim que sair da escola. As famÃlias exigem isso. Bem compreensÃvel.
Mas me assustou demais ter acesso ao PPP e ver que a META de média escolar no ENEM em 2015 (ano em que eu ingressei na universidade) era 480,49. Isso não é nada agradável. Como exigir de um estudante de uma escola como essa tenha perspectivas com algo que soa irreal para a realidade dele? Se a escola é um espaço em que esperanças são constantemente construÃdas, como fazer com que determinadas possibilidades não pareçam ser fantasiosas para esses meninos e meninas?
"Ah, mas você..." eu uma ova! Eu fui, sim, um caso à parte, assim como pouquÃssimos outros estudantes que conheço. E isso tá errado. Tá errado porque não se trata só de "força de vontade". Comparar casos de moleques que vieram de realidades absurdamente diferentes sem levar isso em consideração é injusto e irresponsável, assim como querer interpretar toda a situação a partir de dois ou três casos destoantes. As perspectivas são outras, as esperanças são outras, os sonhos são outros. E a escola participa SIM dessa construção. A comunidade participa. A famÃlia participa.
Ensinar é lidar com esperanças. E às vezes tem coisa demais matando elas.
Eu acho q eu te amo.
E eu tenho muito medo de que isso seja um equÃvoco absoluto ou só um sentimento confuso mas
Eu acho que eu te amo
E a cada vez que eu penso nisso meu corpo insiste em estremecer um pouco e minha cabeça gira alguns graus porque
Eu acho que eu te amo
E penso que eu deveria gritar isso
Mas não sei se é justo contigo deixar você saber e não saber o que fazer depois que você souber que
Eu acho que eu te amo
Mas não há certezas porque não há razão envolvida nisso
São só calafrios e tremores e desejos e confusão e prazer e
Eu realmente acho que eu te amo
Mas se não for verdade eu não posso me responsabilizar porque eu definitivamente não sei definir e identificar o amor
E é exatamente por isso que
Eu acho que eu te amo
E eu não estou perdidamente apaixonado e não sinto que vou morrer sem você
Mas sem você eu também não sei se consigo ter algo que possa ser chamado de vida
E é assim que
Eu acho que eu te amo
E já escrevi e li e pensei e gritei e fiquei sem dormir mas não consigo e não posso ter certeza de nada
Só que
Eu acho que eu te amo
Mas achismos não servem pra nada e eu não sei se você é capaz de sentir o mesmo por mim e se não for eu não saberei o que fazer porque
Eu juro que acho que eu te amo
E nesse achismo eu fico dia e noite e tenho medo de soltar qualquer dia e qualquer hora quando estiver perto de você que
Eu te amo.
She took the midnight train going anywhere"
"A singer in a smoky room
The smell of wine and cheap perfume
For a smile, they can share the night
It goes on and on and on and on"
Passo para a próxima etapa: começo a dublar a música.
"Strangers waiting
Up and down the boulevard
Their shadows searching in the night
Streetlights, people
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night"
Não consigo me controlar e deixo a voz sair, cantando baixinho para não pagar muito mico enquanto esqueço partes da letra. Começo a ouvir uma outra voz tÃmida. Olho para o lado acompanhando o som. Meu olhar se encontra com o de um moço sentado a duas cadeiras de distância de mim. A essa altura, termina o solo e começa a parte mais emocionante da música:
"Don't stop believin'
Hold on to the feelin'
Streetlights, people"
Como companheiros de mico, aumentamos um pouco o volume da voz.
Um sorriso de cumplicidade encerra o dueto.
Os urubus anunciam a morte quando o aroma dela não consegue chegar até nossas narinas. Talvez sua dança macabra seja uma forma de demonstrar respeito ao defunto cuja carne se converterá em vida. Talvez seja um tributo à vida e morte daqueles cujo fim nunca seria anunciado, não fosse os predadores de sua carne morta e o funeral por eles encenado.
Para mim, essa ideia faz com que a cena fique ainda mais bonita.
Sim, eu era uma ladra de livros na infância.
Uma criminosa bastante habilidosa, até.
Roubei não um ou dois, mas vários livros das escolas onde estudei. Como? Experimente estudar em 7 escolas durante a vida escolar e precisar sair de várias delas sem explicações ou tempo para despedidas. Quando eu começava a sentir o cheiro da mudança, alugava os livros e, convenientemente, não tinha tempo para devolve-los.
Dessa forma, consegui manter comigo excelentes livros. Boa parte da minha atual biblioteca pessoal (que ainda cabe numa caixa de papelão) eu adquiri dessa forma criminosa e desonesta, tomando posse de bens públicos.
Hoje eu me perdoei pelos meus crimes.
Entenda: eu nunca tive muitos amigos nas escolas em que estudei. Nem tive tempo pra consolidar amizades. Os livros ocuparam esse lugar na minha infância. A descoberta dos prazeres da leitura foi também a descoberta de uma forma leve e deliciosa de encontrar refúgio. Com meus passaportes apoiados entre as pernas, eu viaja para todos os lugares possÃveis, conhecia novas palavras e novos sentimentos, aprendendo a dar nome a coisas que eu nem sabia que poderiam ser nomeadas. Permitia-me sentir de tudo: ria, chorava, odiava, amava. Era tudo real e intenso demais para mim, e eu preferia considerá-los mais reais que minha própria vida.
Dessa forma, acabei criando com alguns desses livros uma relação de afeto tão forte que não me permitia separar deles. Tinha que leva-los comigo. Eis o motivo dos meu crimes.
Mas, ao longo da minha vida, fui descobrindo o prazer de conversar com alguém sobre essas obras e sentir em sua fala a mesma paixão que eu tinha. Assim, desejando cada vez mais sentir esse prazer, passei a indicar e emprestar livros para amigos. Aos poucos, minha biblioteca de livros furtados começava a diminuir à medida que eles iam sendo furtados pelas pessoas a quem eu os emprestava. Dessa vez, eu estava criando os ladrões. Mas isso n me importava muito. Eu sabia o que eles sentiam e o que os levava a fazer isso. Sentia satisfação ao saber que alguém havia se apaixonado tanto quanto eu por uma obra a ponto de nunca mais me devolvê-la. Acredito que, assim como eu, eles também descobriram mais tarde o prazer de possibilitar a outros essa paixão e acabaram tendo de se desfazer de seu objeto de amor. Exatamente como eu. Acho que amar demais tem um pouco disso: você se torna um pouco egoÃsta por n qrer se desfazer momento algum do objeto de amor, mas, conforme amadurece um pouco, você se dá conta de que é injusto demais prender algo tão maravilhoso só contigo e impedir que outras pessoas tenham acesso a isso. Há coisas que são boas demais para serem só nossas.
Senti uma cutucada no ombro e levantei a cabeça para olhar a pessoa que falava cmg:
-São Gonçalo. - respondi e abri um sorriso, surpresa com a abordagem de alguém que nem me conhecia.
-Isso. Fica um monte de gente esperando ele aqui. Chega umas cinco e quinze. - disse o tal senhor, enquanto se afastava.
Dois minutos depois, senti outra cutucada.
-E como foi? - perguntei, desistindo da leitura.
-Ora, me dei bem. Eu sou um fenômeno! Vou te contar: na minha carreira, de militar, eu tinha feito todo tipo de curso pra subir de nÃvel, sabe? Mas n tinha nem o primeiro ano do primário! Se eu tivesse de ser enforcado por n ter o primário, eu ia, acredita? Pois bem, um dia, meu superior (homem de anel no dedo!) me chamou e disse "a partir de hoje vc vai começar a estudar!". Falou assim, como se fosse meu pai! Aà eu disse "é o quê?", e ele me falou: "olhe, aqui dentro vc é o Papa. Aqui vc sabe de tudo. Mas qndo vc sair daqui e te perguntarem o nÃvel da tua escolaridade, qndo vc disser q n tem nem o primário, vão dizer q vc não é nada. Vão te chutar, vão dizer q vc é um bosta. Então, a partir de hj, vc vai estudar." Depois do almoço, ele me levou para um desses cursos q a gente estuda e termina as coisas cedo. Quando eu cheguei lá, a moça olhou pra mim e perguntou pra qm era o curso. Claro, eu já era homem feito, cabelo ficando branco, um homem desse ir estudar não tinha sentido, né? Mas eu fiz. No primeiro ano, depois das provas, eu tava lá com um certificado na mão. Eu não acreditei. Pra qm não tinha nem primário já ter um certificado é muita coisa. Mas continuei. Depois eu consegui o certificado de Ginásio! Pra qm n sabia de nada, tava eu lá, com dois certificados na mão, assinados por todo mundo. Aà eu fiquei sabendo q ia ter o vestibular da Federal, e decidi fazer pra tirar a prova dos 9. Vou te contar, eu sou um fenômeno! Éramos 800 para 50 vagas para pedagogia aà na Federal. A prova objetiva classificou 100 dos 800. Aà depois vinha a redação.A redação fazia todo mundo de todos os cursos, Medicina, tudo qnto era curso. Eu fiz. No dia do resultado, foi o dia em q eu descobri q aà só tem analfabeto. Fu olhar a lista, tava eu lá: 5º lugar na colocação. Aà eu pensei "não é possÃvel. Como é q pode um negócio desse? Os outros são tudo uns analfabetos, então, só pode". Pra vc ver como eu sou um fenômeno.
Há poucos dias um menino cuja existência eu ignorava fez uma publicação incomum em um dos maiores grupos secretos do facebook, um grupo focado principalmente no humor. A publicação era uma foto de um pulso com um corte profundo próximo a uma veia. A legenda era algo como "vocês também vão se matar mas esquecem os óculos e acabam não conseguindo acertar a veia?". Era madrugada, umas duas da manhã. Eu ri com a publicação, assumo. O fato de um menino estar tentando se matar durante a madrugada e lembrar de fazer uma última piada consigo mesmo é um pouco engraçado (ao menos pra mim q tenho um humor negro pesadão). Seria o tipo de coisa que eu faria. Os comentários eram coisas como "isso dá ban", "ban noite". Quando tentei comentar percebi que a publicação tinha sido removida. Massa, entrei no perfil do garoto (que parece ser uma pessoa bem divertida) e conversei com ele inbox, avisando que a publicação tinha sido removida. Ele me respondeu, mas a conversa foi curta demais. Terminou com um "já achei meus óculos". Continuei mandando mensagens, mas o rapaz não visualizou mais. Mandei solicitação de amizade, mas n houve resposta. Todo dia eu vou lá no perfil dele olhar se alguém fez algum post sobre seu suicÃdio ou sobre a tentativa. Absolutamente nada. Nenhum post, nenhuma foto, nenhum comentário que dê uma pista do que aconteceu. Ele ainda n visualizou minhas mensagens.
Hoje é dia 09 de janeiro de 2018 e eu já fiquei sabendo de vários casos de suicÃdio de pessoas que nunca conheci. Tive conhecimento deles por grupos de facebook mesmo. Algumas dessas pessoas avisaram, outras não. Hoje vi um post de uma mãe que lamentava o suicÃdio do amigo do filho. Ela se perguntava como eles não foram capazes de perceber que ele estava tão mal.
Enfim, Eu ainda estou aflita com o caso do menino. Imaginar que talvez eu tenha sido a última pessoa com quem ele conversou é assustador. O facebook tem dessas coisas, né? A gente aprende a amar, odiar e se preocupar com pessoas que nunca vimos. Talvez o mais interessante seja a aproximação que essa rede social faz entre pessoas que têm poucas coisas em comum, muitas vezes de idades, regiões, classe social e culturas diferentes, mas que são conectados por alguma razão e passam a confiar uns nos outros. Mas eu tenho muito medo do quanto nós abrimos mão do bom e velho olho no olho, talvez porque esse tipo de contato seja difÃcil demais. É bem mais fácil gritar pensamentos suicidas na internet, refugiando-se atrás de um computador e rindo, que dizer todas essas coisas encarando alguém a quem se ama e que irá sofrer com tudo isso.
Mesmo sendo filho de Deus e descendente de reis, o menino foi deitado em uma manjedoura ao nascer, não havendo lugar para ele nas hospedarias, o que não evitou que fosse louvado: foi visitado por pastores e magos guiados por uma estrela, recebeu presentes caros, e seu nascimento foi divulgado como a chegada do Rei dos Judeus (Lc 2; Mt 2:1-12). Essa divulgação colocou a famÃlia em maus lençóis, tornando-os fugitivos do Estado (Mt 2:13-23). O menino e seus pais foram, até a morte de Herodes, imigrantes no Egito, sendo acolhidos na terra que escravizou seus antepassados. Jesus integrou, assim, uma das famÃlias menos tradicionais que já existiu: gerado pelo EspÃrito Santo no útero de uma virgem prometida, adotado por um carpinteiro de descendência real, fugitivos do Estado e estrangeiros em terra estranha.
Após o retorno, o Reis dos Judeus foi criado na cidade de Nazaré, Galiléia. Terra desprezada, de povo mestiço, da qual nunca veio profeta algum, e de onde se acreditava não vir nada de bom (Jo 1:46; 7:52). Pouco se sabe sobre sua infância, mas se diz que, aos doze anos, foi esquecido por seus pais em Jerusalém, ficando naquela cidade por três dias, após os quais foi encontrado no Templo conversando com autoridades religiosas. Pelo que diz na BÃblia, pareceu surpreender-se quando questionado por sua mãe sobre o porquê que ficara na cidade, deixando-os preocupados procurando-o (Lc 2:41-52). Por volta dos trinta anos, Jesus iniciou seu ministério de forma bastante simbólica. Após batizar-se nas águas e ser tentado por 40 dias pelo próprio Satanás, que lhe ofereceu poder e todos reinos da terra, além de incitá-lo a mostrar seu próprio poder e fazer uso da sua glória, Jesus adentrou uma sinagoga e, tomando os escritos de IsaÃas, leu a passagem que diz: “O EspÃrito está sobre mim, pelo que me ungiu para pregar o Evangelho aos pobres, enviou-me (para curar os quebrantados de coração); para proclamar libertação aos cativos e para dar vista aos cegos; para pôr em liberdade os oprimido, para proclamar o ano favorável do Senhor.” Fechando as escrituras, Jesus declarou cumpridas aquelas palavras. Após dizer mais algumas afirmações, o filho de Deus foi expulso da cidade e levado ao monte para ser de lá jogado, mas conseguiu fugir (Lc 4:1-30).
Seu primeiro milagre foi bastante “terreno”: em uma festa de bodas, transformou água em vinho para que não faltasse a alegria dos convidados (Jo 2:1-12). Ao longo de seu ministério, reuniu 12 discÃpulos, seguidores mais próximos, com personalidades marcantes e bastante diferentes (impacientes, orgulhosos, precipitados, hipócritas, violentos) ensinando-os. Reuniu, ainda, seguidores de vários tipos e classes. Percorreu diferentes cidades, não hesitando em andar no meio dos desprezados. Curou cegos de nascença, paralÃticos e leprosos, atribuindo a cura à fé destes. Comeu com cobradores de impostos e pecadores (Mc 2:13-17). Ensinou através de parábolas, no meio do povo, buscando tornar a mensagem acessÃvel aos que ouviam, sem qualquer formalidade. Fez atividades durante o dia de sábado, enraivecendo os conservadores ao afirmar que “o sábado foi instituÃdo para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2:23-27). Questionou normas sociais, tradições e padrões de comportamento, ressaltando a hipocrisia daqueles que mais eram apegados a elas (Mt 15:1-20; Lc 11:37-54). Não teve receio ao expor feridas daquela sociedade. Chegou a ser acusado por escribas de estar endemoninhado (Mc 3: 20-30). Pregou a igualdade e a irmandade como poucos, afirmando uma famÃlia que não se faz por laços sanguÃneos, mas sim pelo viver e fazer a vontade de Deus (Mc 3:31-35). Em seu ministério conversou com as mulheres não como se fossem coadjuvantes, mas como sendo tão protagonistas quanto os homens. Chamou-as para perto, falava diretamente com elas, ensinando-as como a qualquer um (Lc 8:1-3; Lc 10:38-42). Em meio a uma multidão que o tocava, notou o toque (não apenas com as mãos, mas em espÃrito) de uma mulher que sofria de hemorragia havia 12 anos (Lc 8-40-48). Uma das maiores responsáveis por propagar suas palavras foi uma samaritana, de terra desprezada pelos judeus, absolutamente fora dos padrões exigidos para a época, com a qual conversou a sós, sentado junto a um poço (Jo 4:142). Louvou a fé de uma mulher estrangeira, siro-fenÃcia, que os discÃpulos viam como um estorvo (Mc 7:24-30; Mt 15:21-28; Lc 8:40-48).
Jesus ensinou sobre amor, compaixão, paciência e entrega aos outros (Lc 6:27-36). Criticou severamente a caridade para orgulho e louvor próprio, feita com o objetivo de elevar o que a pratica, mas louvou as ações feitas por amor e entrega (Mt 6:1-4; Lc 10:25-37;). Criticou ainda, os que se exaltam por seus atos, considerando-se superiores aos demais (Lc 18:9-14). Denunciou a paixão pelas riquezas e alertou dos perigos que ela traz (Lc 12:15-21, 32-34, 18:18-30; Mt 6:24). Irou-se profundamente quando viu transformarem a casa de Deus em um mercado. Em sua trajetória andando com pecadores, deixava-os com uma mensagem que parecia mais um conselho que uma ordem: “vai-te, e não peques mais”
Com toda a sua força e poder, Jesus chorou não apenas uma, mas três vezes citadas nos textos bÃblicos. Chorou quando morreu seu amigo Lázaro, que ele amava profundamente (Jo 11: 32-35); chorou por Jerusalém, lamentando a ignorância de seu povo e a sua futura destruição (Lc 19:41-44); chorou quando orava ao Pai, sofrendo e pedindo que aquele cálice fosse dele afastado, mas sempre priorizando a vontade divina(Lc 22:39-46).
Conhecendo seu traidor e sabendo do seu destino, Jesus nada fez para evitar o que iria acontecer. Sofreu calado, entregando-se à morte. Foi traÃdo por um de seus seguidores mais próximos com um beijo. Curou um dos homens que estavam ali para prendê-lo (Lc 22:50-51). Preso, foi negado três vezes por um amigo que o acompanhou durante todo o ministério. Em nome da ordem, foi acusado e julgado por seu próprio povo, que preferiu um homicida a um desordeiro, “agitador do povo” (Lc 23:5, 14, 18-19, 25). Escarneceram-no, torturaram-no e, por fim, o crucificaram. Jesus foi chorado pelas mulheres que o seguiram, acompanhando-o durante toda a crucificação (Lc 23:27-29, 49; Mt 27:55,56). No auge de seu desespero, o filho de Deus sentiu-se desamparado, abandonado pelo próprio pai (Mt 27:46). Por fim, morreu pedindo perdão pelo povo que o matou. Após três dias, ressuscitou, cumprindo suas palavras. Apareceu primeiramente a Maria Madalena, escolhendo-a para anunciar aos discÃpulos o seu retorno (Jo 20:11-18). Ressuscitando, Cristo cumpriu toda a Lei e as Escrituras, inaugurando agora um novo tempo baseado no seu sacrifÃcio eterno e insubstituÃvel: o tempo da Graça.
O ministério de Jesus foi revolucionário, mas de forma bastante peculiar. Sua revolução partia do individual para o coletivo, acontecendo primeiramente no caráter daqueles que o ouviam e o seguiam, para assim mudar a realidade social. É uma revolução que começa no coração, despertando o amor da criatura para com seus diferentes, percebendo-o como iguais, fazendo-o enxergar as injustiças e sentir a necessidade de mudá-las. O amor de Cristo não era e não pode ser representado como um amor que apenas observa e denuncia, pois é um sentimento que gera incômodo e, por isso, exige ação. É um amor que mexe, transforma a ordem, bagunça as idéias e, por isso, incomoda. Portanto, não é uma revolução de paz e calmaria, mas uma revolução que traz guerras e divisões (Mt 10:34-36). O amor de Cristo não se conforma com as injustiças e não se alegra com a dor dos que o rodeiam. E é um amor tão profundo, inconfundÃvel e particular que Jesus se permitiu ir um pouco além das Escrituras: se o Velho Testamento nos diz que devemos amar uns aos outros como amamos a nós mesmos, ele manda que nos amemos como ele nos amou (Jo 13:34).
