Por amor ao caos

terça-feira, outubro 23, 2018

Costumeiramente, a barbárie é empreendida em nome da ordem. Uma ordem mecânica, impositiva, ilusória, intolerante. Uma ordem que castra. Uma ordem que é farsa. Uma farsa que busca organizar o caos que é, em sua forma mais conturbada, aquilo que nos faz humanos.
Por isso, é necessário manifestarmos nosso repúdio à ordem dos pilantras e nosso amor ao caos que nos é próprio.
Meu mais profundo respeito ao caos da pluralidade de ideias e saberes científicos e populares, bem como aos que em nome dele lutaram e sofreram, possibilitando a tantos o acesso ao conhecimento que quebra dogmas e transforma mentes e mundos. Que a ordem do silêncio jamais prevaleça sobre ele.
Meu absoluto carinho ao caos que une universos e cria afetos entre os diferentes, resultando nas surpresas dos amores imprevistos, das uniões inexplicáveis e dos abraços sem lógicas e regras prontas. Que a ordem dos amores em fôrmas, mecanizados e prontos jamais o submeta.
Meu mais sincero zelo ao caos das emoções humanas, das loucuras diárias, tanto as feias quanto as belas, dos universos próprios e profundos daqueles que se desencaixam em um mundo que busca, inutilmente, formular e impor encaixes. Que a ordem rasa da normalidade jamais possa calar a voz e a cor dos nossos loucos.
Minha eterna admiração ao caos da arte e dos artistas que colorem o mundo com sua sensibilidade incompreendida e cheia de tons, aos poetas e suas releituras do mundo em versos, à paz dos sons e ao impacto das imagens que tiram o fôlego. Que a ordem dos impostores, insensível e seca, jamais o padronize com seu cinza sem vida e expressão.
Meu total apoio ao caos da luta pela vida, pelo direito de existir, pela resistência. Que a ordem dos que assistem ao mundo da janela do apartamento, com suas taças de vinho branco nas mãos e panelas (que foram utilizadas no fogão por mãos negras, pobres e nordestinas) amassadas no fundo pela batucada da hipocrisia, não faça morrer o grito de liberdade.
Somos o caos que move o mundo. Somos o caos que incomoda tua ordem de canalhice disfarçada.
Que fechem os sinais. Invadiremos as ruas.
Por amor ao caos.
23/10/2018.

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