Hoje, passado um mês desde o acontecido, fui visitar meu pai.
Justifiquei a demora para a famÃlia dizendo que os afazeres de jovem recém-concursado morando em outra cidade não me permitiam fazer essa viagem tão rápidamente quanto gostaria. Não era de todo mentira, mas definitivamente não era uma completa verdade. Demorei para reconhecer para mim mesmo que eu não queria fazer essa visita tão cedo. E não era apenas pela dor - ela, claro, existia - mas pelo desconforto e medo das minhas reações - ou ausência delas.
A última vez que vi meu pai foi há pouco mais de 7 meses. Desde então, nunca mais nos falamos. Eu perguntava por ele quando falava com minha mãe pelo telefone. No inÃcio, ela alongava a resposta reafirmando que nós deverÃamos voltar a manter alguma relação. Sua voz embargava e isso dóia em mim. Nos últimos meses, entretanto, ela passou a responder com um "bem" cansado e que não transmitia sinceridade alguma. Eu sabia que ele não estava bem. Por outro lado, não queria ouvir isso. Não queria ouvir nada. Não que eu o odiasse, apenas não suportava a necessidade internalizada de que deveria amá-lo. Eu não o amava.
Não foi uma grande surpresa quando recebi, através de um telefonema da minha irmã aos prantos, a notÃcia de que ele tinha ido embora deste plano. Era esperado por todos. Mas senti um incômodo estranho, um sentimento desconhecido, mas inominável. Não chorei, mas os dias seguintes definitivamente não foram comuns. A rotina era idêntica, com a diferença que agora eu passava os dias esperando as lágrimas que nunca vinham. Tudo ficou cinza e eu não sabia identificar a razão. Não era saudade.
Decidi que precisava visitar seu túmulo para me livrar dessa sensação estranha e sem nome. Precisava, também, livrar-me do julgamento da famÃlia e dos amigos que não se conformavam com o desinteresse que eu parecia dar à morte de meu próprio pai. Voltei à minha antiga cidade, aquela que nunca fora meu lar.
Abracei minha mãe e meus irmãos, dei alguns beijos nos sobrinhos e dispensei a companhia daqueles que se ofereceram para me acompanhar até o cemitério. Não sabia o que esperar. Se fosse chorar, que chorasse sozinho. Mas havi o medo, também, de que nada acontecesse. Como explicar a ausência de emoções? Seria imperdoável.
Andei pouco pelo cemitério. Era um lugar pequeno e simples. Era feio. Para mim, não transmitia emoção intensa alguma, só ausências. Em meio a algumas cruzes no chão de grama amarela, havia alguns túmulos belos, em formato de capela, com fotos, flores e homenagens. Até na morte - ou principalmente nela - os homens precisam marcar alguma diferenciação.
Senti pena. Não dos que estavam ali, mas de nós, os vivos.
Cheguei ao túmulo daquele com quem vivi a maior parte da minha vida. Era surpreendentemente simples. Ri timidamente ao imaginar que minha mãe deve ter se contido bastante para não arquitetar algo exuberante para a eterna morada de meu pai, mas me repreendi severamente logo depois. A dor daquela mulher deve ter sido tão profunda que, pela primeira vez, ela sequer deve ter tido tempo ou sanidade para pensar em algo dramático e belo para meu pai.
Olhei a lápide por alguns minutos. Nada. A situação era constrangedora por não ser comovente. Esperei as lágrimas e elas não vieram. Tentei: "olá, pai", e me senti um idiota por iniciar uma conversa com um corpo morto e enterrado na terra há um mês.
Aos poucos, fui me forçando a lembrar da figura de meu pai. Não era um homem rude. Era um grande parceiro, cheio de amigos, do tipo que junta a famÃlia aos domingos e joga baralho com os homens enquanto as esposas preparam o almoço. Sempre aos risos, dava conselhos e contava piadas. Repreendia os filhos, mas evitava agir com excessiva dureza. Cultivava alguns amores não-oficiais, mas jamais tratou mamãe com menos carinho ou delicadeza do que ela merecia. Era um homem conhecido de todos na pequena cidade, mas modesto como poucos. Reparei mais uma vez na simplicidade de sua atual morada e sorri: papai teria gostado.
Olhei o relógio. 25 minutos se passaram e nenhuma lágrima tinha saÃdo dos meus olhos. Nenhuma emoção mais intensa. Agradeci silenciosamente por não ter trazido companhia e me voltei na direção da saÃda. Após alguns passos, olhei para trás e disse, em tom de despedida e alÃvio por colocar um fim à quilo:
"adeus, pai".
Dei partida no carro em direção à casa de minha mãe (havia dito que almoçaria lá). No meio do percurso, desviei do caminho e segui aleatoriamente pela pequena cidade, talvez num último ato de desespero para achar ali algo que me fizesse retomar a lembrança do homem que criou. Esperava ardentemente alguma emoção intensa, uma reminiscência, qualquer coisa que tirasse de mim a sensação de ser semelhante a uma pedra.
Num rompante as tão esperadas lágrimas vieram. Estacionei o carro no meio-fio e deixei que elas tomassem conta de mim. Não era um choro de saudade, mas definitivamente era um choro de ausência e luto. Luto por um sentimento natimorto ou assassinado pela ausência de uma paternidade ideal e socialmente exigida. Nós não nos amávamos. Nunca nos amamos. Mas não nos odiávamos. O desprezo de um pelo outro cresceu à medida que nos exigiam uma relação impossÃvel para quem éramos. O laço biológico não era capaz de suprir nada, e nos sentÃamos culpados por ele não ser o bastante. Éramos vÃtimas, os dois. As brigas vieram como uma maneira de encontrar justificativas e uma razão concreta para o que não sentÃamos.
Ao fim das lágrimas, uma única lembrança permanecia:
No quarto quente, bonito e colorido, eu agitava as mãos enquanto olhava para aquele homem estranho sentado em uma cadeira de pano fitando meus pés. Altamente debilitado e quase sem fôlego, meu pai, irreconhecÃvel, inspirou profundamente para dizer a frase completa:
"eu prefiro morrer a ter que olhar na tua cara, Gustavo"
"Pois morra", respondi.