quarta-feira, junho 27, 2018

"Eu me revelo, como já se disse, com meu rosto e meus olhos e, se alguém quisesse me tomar por Minerva ou pela sabedoria, eu o haveria de desiludir sem palavras, por um só olhar que é o espelho menos mentiroso da alma. Não uso disfarce, não dissimulo no rosto o que não sinto no coração. Sou sempre igual a mim mesma. Não ponho máscara, como aqueles que pretendem representar um papel de sábios e andam desfilando como macacos vestidos de púrpura e como asnos com pele de leão. Que se vistam com disfarces quanto quiserem, que suas orelhas sobressalientes revelarão sempre um Midas oculto."
Elogio da Loucura - Erasmo de Rotterdam.
O texto acima é parte de um discurso da Loucura. Sim, é ela quem fala. Rotterdam escreve e publica. Não, não faz muito sentido que eu venha a postar isso no Facebook, mas nós estamos falando de loucura, não é mesmo? Logo veremos que as ações loucas costumam fazer bastante sentido, até.
Nesta segunda-feira, ouvi de uma das pessoas que mais admiro no mundo que eu deveria assumir minha loucura. Foi um conselho de uma louca para outra louca inexperiente e confusa. Eu não pude deixar de estranhar o conselho. Não que eu não concordasse que a loucura deve ser assumida, mas porque eu, em minha ingenuidade, achava que já tinha assumido a minha. Não conseguia ver meus disfarces. Ora, ao longo de toda a minha vida até agora (19 anos, para ser mais clara), o adjetivo que mais me foi atribuído foi o de louca. Eu, uma louca, buscava entender as razões para isso. Perdia noite de sono procurando entender o que me fazia diferente dos normais. Por fim, acabei por perceber que esse adjetivo parecia sempre estar ligado às pessoas que agiam, falavam e pensavam fora dos "padrões". Era louco quem ria alto e não se preocupava com o que os outros iriam dizer; louco quem falava verdades, dúvidas, inseguranças, sentimentos; maluco de pedra quem questionava coisas que já estavam certas para a maioria. Eu, coitada, questionava tudo, brigava por tudo, ria de tudo, chorava mais ainda. Louca.
Aos poucos, fui me apaixonando por essa loucura. Percebi que ela me fazia um pouco diferente e eu gostava disso, apesar das dores e da solidão que isso me trazia. Comecei a defender a bandeira dos loucos. E foi essa minha maluquice que me colocou aqui na universidade e, mais especificamente, no curso de História. Segunda-feira eu pude entender, pela primeira vez, a razão pela qual eu consegui me encaixar um pouco aqui. Segundo a tal pessoa, esse é um lugar de loucos. Claro, ninguém com o juízo perfeito gastaria a cabeça tentando entender o que aconteceu no século XVII. Faz todo o sentido. E eu acabei por enxergar pela conversa que, no fundo, eu louvava a loucura enquanto me forçava a ser normal. Não adianta. quem aqui se encaixa está estupidamente fora dos padrões de normalidade
Mas aqui também é um lugar de sábios, aspirantes a sábios ou metidos a sábios. E eu acho que esse foi o grande erro da Loucura em seu discurso: passou tempo demais separando-se da sabedoria, como se tivesse dela nojo, buscando mostrar-se superior. Ora, pelos próprios argumentados apresentados por ela ao louvar-se em detrimento da sabedoria, fica claro que quem busca ser "mais sabido" e se dispõe a enfrentar as consequências disso não pode ter o mínimo de juízo na cachola. Saber dói demais. Reconhecer sua própria estupidez diante do mundo e se entregar às delícias da busca pelo conhecimento sem garantia alguma para tal é um troço bem estúpido de se fazer.
No fim, somos todos uns loucos. E penso que a Sabedoria e a Loucura são duas amantes briguentas. Por isso, acho que a Loucura se absteve de contar parte da história quando fez seu tal discurso. Devia estar brigada com a Sabedoria. tudo bem, que briguem para disputar quem é superior a quem. Esse deve ser um relacionamento difícil. No fundo, devem entender que, quando se juntam, o orgasmo advindo dessa transa torna tudo mais divertido e apaixonante.
Quanto a mim, desisto. Não me encaixo no mundo dos normais. E tudo bem: tal mundo não me satisfaz.
Assumo minha loucura.

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