Manda quem pode, obedece quem tem juízo

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos - libertar-se a si e aos opressores.
Paulo Freire.

Desconfie de quem baseia seu posicionamento político-econômico e sua luta apenas em sua classe e vivência.

Em uma discussão sobre biopoder, um professor perguntou como poderíamos discutir esse assunto com alguém que deseja ser rico.  Como contribuir para que alguém se liberte de um jugo que ele  não só carrega alegremente como acredita ser seu passaporte para o topo da pirâmide meritocrática?
"Comece por mim", foi o que pensei.  Imediatamente me envergonhei. Não ingressei na Universidade para me desconstruir e militar, entrei vendo a graduação como um degrau para atingir meu objetivo de ascender na pirâmide. Não fui a única.
O sistema mais forte é aquele que faz da opressão um favor, uma dádiva para os oprimidos. Estes passam a carregar sua cruz como uma honra, suportando tudo para que, um dia, possam estar em um banquete observando a via sacra daqueles que não se esforçaram o suficiente. Parece-me inclusive, com a ideia do cristianismo de martírio em nome de Deus para que a glória seja alcançada. Mas aqui a glória é outra: o céu é o poder.
No Brasil há um ditado que aprendemos ainda crianças: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Obedecer é uma regra para que se possa mandar um dia. Ninguém gosta de obedecer, pois reconhecem que é um fardo, mas interpretam como um fardo necessário. No discurso do sistema, o poder é fruto do esforço e merecimento daqueles que estão no topo da pirâmide, e o caminho para merecer esse poder é ter juízo e obedecer - não aos homens, mas ao sistema. Nessa lógica, os pobres, que tanto apanham diariamente, sonham em ser os ricos para bater. É compreensível. Quando se acredita que bater é um direito, não é estranho que aquele que apanha queira tomar o soco inglês. É o oprimido que admira e quer ser o opressor.
E, para manter essa lógica, o sistema cuidou em deixar uma brecha, mesmo que vaga e distante, para que o os pobres possam ascender alguns andares derrubando outros, e, enquanto se esforçam para isso, sustentem a base da pirâmide. Ao ascender, o pobre vira um cidadão médio, e quer manter seu poder recém-adquirido na ilusão de ser um rico. Como novo-rico, seus interesses mudam, sua luta baseada em sua classe é outra, suas perspectivas se transformam. O oprimido passa a ser opressor. E assim, a ordem do sistema continua. Sem o apoio da base, o sistema não existiria. Não são os ricos quem sustenta o capitalismo: é o opressor que há em mim.

Os donos da luta

sábado, janeiro 07, 2017

Numa tarde qualquer, estávamos eu e alguns amigos almoçando salgadinhos na praça de alimentação de um shopping. Uma cena até comum nos shoppings de Fortaleza. Mas, diferentemente do que a maioria das pessoas gostam de conversar quando estão almoçando com amigos, conversávamos sobre política, economia e opressão do proletariado. 
Em algum momento da conversa, comentei um caso de quando trabalhei como garçonete em que uma mulher não quis pagar os 10% que costumam cobrar para os garçons. Foi então que uma amiga me interrompeu dizendo que ela também nunca paga essa cobrança injusta, já que o correto seria a empresa pagar seus funcionários. O clima na mesa mudou completamente. De repente, senti-me como que se a mesa tivesse sido divida: de um lado estava eu, que já vivi a situação discutida no pólo oposto ao dela; do outro, estava ela defendendo um direito seu, indiscutivelmente. Passamos, naquele momento, a assumir duas posições distintas: eu era a garçonete, ela era a cliente. Ao perceber que o clima mudara, ela começou a se explicar: recusar pagar a tal cobrança injusta era também uma maneira de se posicionar a favor do garçom, já que este tinha o direito se ser pago com um salário digno, não dependendo da boa vontade do cliente. Ela estava defendo o garçom, lutando pela luta dele contra a opressão do patrão que sairia ileso de qualquer conflito entre as duas partes em questão. Suspirei e perguntei a ela o que mudara quando ela havia se recusado a pagar a cobrança. Sem  obter resposta, eu mesma respondi: o garçom ficara sem o pagamento pelo trabalho de servi-la.
Esse acontecimento me lembrou as mensagens de empoderamento pintadas nos banheiros das faculdades, feitas por revolucionários de facebook que provavelmente se esqueceram que proletários limparão aquilo que eles vêem como filosofia, mas os funcionários enxergam como sujeira.
Vivemos um tempo em que, sob os ideais de revolução e empoderamento, os discursos de luta pelo proletariado e pelo povo estão cada vez mais frequentes. Mais e mais pessoas se juntam ao grupo dos que querem uma sociedade diferente, que respeite aqueles que por muito tempo foram excluídos da história. Ironicamente, os que mais ficam distantes dessa luta são as minorias de classe. As discussões sobre capitalismo, biopoder, feminismo, diversidade de gênero, etc não atingem os grupos das favelas, do interior e das escolas públicas que nunca tiveram acesso ou nunca quiseram ler livros sobre política ou economia. Esses discursos de luta geralmente ficam presos em bolhas universitárias ou coletivos de militância sem carisma algum. E o pior: quando algum pobre marginalizado se aproxima dessas discussões e acaba por expressar algum preconceito ou ignorância fruto da realidade em que vive é rotulado de fascista e reacionário, sem que alguém se preocupe em explicar ao menos do que ele está sendo acusado. Dentro da bolha, eles são ironizados como "pobres de direita", o que seria o cúmulo da burrice.
Se seguir esse caminho, a revolução não será das minorias, será de uma elite que, sem perguntar o que pensam os oprimidos, se encarregaram da missão de lutar por suas causas, considerando que sabem exatamente o que é melhor para eles. Os pobres não precisam pensar, a burguesia intelectual messiânica pensa por eles, pensa por nós. Infelizmente, isso não anda funcionando. Estamos afastando aqueles que deveriam ser os protagonistas das mudanças. 
Finalmente, ou entregamos a luta nas mãos a que ela pertence, comprando a briga e fazendo o investimento de levar a eles o que por tanto tempo lhes foi negado - o conhecimento, ou continuamos fazendo exercício de ego em nossa bolha intelectual enquanto esperamos que as minorias a invadam. Enquanto isso, os donos do poder fazem a festa.

É muita intolerância por metro quadrado

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Um dia desses, ao voltar do restaurante universitário com alguns amigos, passei por uma situação altamente constrangedora e inesperada. Estávamos em grupo, e eu, muito próxima de uma amiga, andava de braços dados com ela enquanto ríamos de alguma piada sem graça. Ao atravessarmos a rua, um homem esbarrou em nós e, nos fitando da cabeça aos pés com expressão de nojo, falou um "é muita sapatão por metro quadrado" e se afastou rapidamente.
Após alguns segundos processando o que tinha acabado de acontecer, nossa primeira reação foi cair no riso. Eu, cristã, heterossexual, casada aos dezesseis anos, considerava-me imune a esse tipo de preconceito. Minha amiga, também hétero, ria desesperadamente do engano daquele senhor. 
Não estávamos isoladas em uma rua estranha povoada pela família tradicional brasileira. Estávamos com amigos, na Av. da Universidade, Benfica, em frente ao Centro de Humanidades, um local onde LGBT's costumam sentir-se mais livres para expressar abertamente a sexualidade muitas vezes reprimida em outros lugares. Mas naquele lugar encontramos a intolerância daquele homem antes de o encontrarmos como homem. Mal lembro da face dele, mas lembro perfeitamente das palavras e da expressão de nojo fixa em nós. Naquele momento, aquele homem mostrou-se somente em sua intolerância. Sem nome, sem família, sem religião, ele se fez conhecido unicamente como "o homofóbico". Não bastou para ele pensar coisas ao nosso respeito e nos pré-conceituar baseando-se somente em um gesto de carinho entre duas amigas. Não bastou encarar-nos com um olhar de reprovação e nojo. É a necessidade de ofender, ferir, causar alguma espécie de sofrimento, o que rege essas pessoas. Sem pregar-nos Deus, mensagens bíblicas, argumentação científica ou qualquer outra coisa, ele se contentou em ofender e sair rapidamente, ignorando o fruto do que deixou para trás.
Mais tarde, lembrei-me de um dia em que, em um ônibus, minha mãe me abraçava e brincava com meus cabelos, quando escutamos um homem que tinha acabado de descer aos gritos nos chamando de "sapatonas". Eu tinha cerca de doze anos.
Na noite de 25 de dezembro de 2016 um homem foi espancado até a morte após defender uma travesti que estava sendo agredida por dois homens numa estação de metrô de SP.
A homofobia não é um problema só para grupos LGBT, ela adoece toda a sociedade e mata todos que se opõem ao seu ódio. Enquanto ela existir, ninguém estará seguro.
Não me impressiona que, quando contamos aos nossos amigos a confusão do tal homem que esbarrou em nós, os únicos que não riram foram os homossexuais. Compreende-se: não encontraram humor algum naquilo.

Sob o jugo da felicidade

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Fim de ano é época de festas. Estudantes estão de férias, famílias preparam a ceia e as emissoras de TV dão um up na programação. As músicas motivacionais tocam repetidamente nas rádios falando de amor, paz, prosperidade e renovação. É um momento de alegria.
Nas feiras, lojas e supermercados abarrotados as pessoas fazem filas e brigam alegremente por suas compras. É preciso comprar novas roupas, alimentos caros e especiarias para esse momento feliz. Em um mundo onde tudo é comercializável, a felicidade virou produto e pode ser comprada. Ela vem junto com o vestido novo, o peru de natal e os presentes do amigo secreto. Mas, mais do que nessas coisas em si, a felicidade está na possibilidade de mostrar aos outros o quanto se é feliz. Expor sua alegria é se autoafirmar como alguém realizado, e, portanto, nesse novo mundo de publicização do privado, não existe felicidade por si só ou em alguém sozinho. É preciso fazer ver para crer. O "ser feliz" não é um sentimento: é uma experiência que só pode ser vivenciada em grupo e pela exposição. Ela não existe em si mesma, só se faz real quando é conhecida por outrém.
Felicidade é moda. Está nos livros de autoajuda, nas propagandas e nos comerciais de TV. Vivemos o boom publicitário da felicidade. Todos querem ser felizes. Acordam para serem felizes, comem para serem felizes, dormem para ser felizes, transam para serem felizes, casam-se para serem felizes, adoram deuses em busca de uma deusa que é mais cultuada que todos os outros em nossa sociedade: a felicidade.
A existência do pólo da felicidade cria outro: a melancolia do não-feliz. Nesta cultura, ser infeliz é anormal, quase doentio. Ninguém merece ser infeliz. A infelicidade é definida desde como fruto da acomodação dos pobres de espíritos a opressão maligna. Mas é possível livrar-se dela. E é essa possibilidade que enche as prateleiras das livrarias, lota auditórios em palestras, abarrota igrejas pregando a famigerada prosperidade, e, acima de tudo, vende. A felicidade movimenta o mercado, impulsiona as engrenagens do sistema que passou a se mostrar com uma nova face: um sorriso feliz.
E é por isso que eu posso afirmar, sem dúvidas, mesmo nessa minha busca incessante pela felicidade:
Tenho pena dos felizes.

Os homens, o tempo e os ciclos.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Os fogos anunciam: é meia-noite. Ao fundo é possível ouvir os risos alegres daqueles que saúdam o novo ano. Felicitações, promessas, lágrimas, abraços cheirando a espumante. Inicia-se um novo dia, mas não um dia qualquer. A virada da meia-noite acontece a cada 24 horas como um ciclo natural, mas a cada 365 dias  essa virada adquire um novo significado: trata-se de um ciclo dentro de outro ciclo. 
Longe da questão astronômica, estamos lidando com um ciclo mais humano que qualquer outra coisa. Os homens construíram os ciclos temporais não só de acordo com suas noções de tempo, mas também baseados em como sentem e interpretam o tempo cronológico e histórico. Os anos são lugares de memória. Trata-se de remeter um dia, uma hora, um momento a outro que já passou ou a um que ainda virá. Trata-se de localizar-se num tempo que foge e nunca se repete, de se inserir nos mistérios de Cronos. 
O tempo é um desafio para o homem, lembrando-o de que todos fazemos parte de um ciclo maior que não nos pertence e não controlamos. Precisamos, então, manter a ilusão de que podemos banhar-nos duas vezes num mesmo rio. Precisamos significar o tempo, atribuir significado e tomar posse daquilo que não nos pertence. E ressignificamos o tempo com o passar dos ciclos, porque até mesmo o domínio do pai titã é histórico. Precisamos do novo que não é tão novo assim. Precisamos de fins e inícios, de rupturas em um tempo cronológico linear. Necessitamos dos recomeços, das novas promessas, das novas esperanças, dos novos abraços, para lembrarmos que a correnteza segue e nos arrasta junto com ela sem nos perdermos nas profundezas do mar.