O fim de si mesmo

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Há poucos dias um menino cuja existência eu ignorava fez uma publicação incomum em um dos maiores grupos secretos do facebook, um grupo focado principalmente no humor. A publicação era uma foto de um pulso com um corte profundo próximo a uma veia. A legenda era algo como "vocês também vão se matar mas esquecem os óculos e acabam não conseguindo acertar a veia?". Era madrugada, umas duas da manhã. Eu ri com a publicação, assumo. O fato de um menino estar tentando se matar durante a madrugada e lembrar de fazer uma última piada consigo mesmo é um pouco engraçado (ao menos pra mim q tenho um humor negro pesadão). Seria o tipo de coisa que eu faria. Os comentários eram coisas como "isso dá ban", "ban noite". Quando tentei comentar percebi que a publicação tinha sido removida. Massa, entrei no perfil do garoto (que parece ser uma pessoa bem divertida) e conversei com ele inbox, avisando que a publicação tinha sido removida. Ele me respondeu, mas a conversa foi curta demais. Terminou com um "já achei meus óculos". Continuei mandando mensagens, mas o rapaz não visualizou mais. Mandei solicitação de amizade, mas n houve resposta. Todo dia eu vou lá no perfil dele olhar se alguém fez algum post sobre seu suicídio ou sobre a tentativa. Absolutamente nada. Nenhum post, nenhuma foto, nenhum comentário que dê uma pista do que aconteceu. Ele ainda n visualizou minhas mensagens.
Hoje é dia 09 de janeiro de 2018 e eu já fiquei sabendo de vários casos de suicídio de pessoas que nunca conheci. Tive conhecimento deles por grupos de facebook mesmo. Algumas dessas pessoas avisaram, outras não. Hoje vi um post de uma mãe que lamentava o suicídio do amigo do filho. Ela se perguntava como eles não foram capazes de perceber que ele estava tão mal.
Enfim, Eu ainda estou aflita com o caso do menino. Imaginar que talvez eu tenha sido a última pessoa com quem ele conversou é assustador. O facebook tem dessas coisas, né? A gente aprende a amar, odiar e se preocupar com pessoas que nunca vimos. Talvez o mais interessante seja a aproximação que essa rede social faz entre pessoas que têm poucas coisas em comum, muitas vezes de idades, regiões, classe social e culturas diferentes, mas que são conectados por alguma razão e passam a confiar uns nos outros. Mas eu tenho muito medo do quanto nós abrimos mão do bom e velho olho no olho, talvez porque esse tipo de contato seja difícil demais. É bem mais fácil gritar pensamentos suicidas na internet, refugiando-se atrás de um computador e rindo, que dizer todas essas coisas encarando alguém a quem se ama e que irá sofrer com tudo isso.

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