Cúmplices

segunda-feira, abril 30, 2018

Da série "Pq eu amo Glee".
Intercampi não tão lotado (coisa rara). Eu sentada (coisa rara tb) no banco de um dos extremos da última fileira de bancos do ônibus. Começa a tocar Don't Stop Believin' (versão orignal, não a do Glee).
"Just a small town girl
Livin' in a lonely world
She took the midnight train going anywhere"
Eu não resisto e começo a bater com as mãos nas pernas seguindo o ritmo da música.
"A singer in a smoky room
The smell of wine and cheap perfume
For a smile, they can share the night
It goes on and on and on and on"
Passo para a próxima etapa: começo a dublar a música.
"Strangers waiting
Up and down the boulevard
Their shadows searching in the night
Streetlights, people
Living just to find emotion
Hiding somewhere in the night"
Não consigo me controlar e deixo a voz sair, cantando baixinho para não pagar muito mico enquanto esqueço partes da letra. Começo a ouvir uma outra voz tímida. Olho para o lado acompanhando o som. Meu olhar se encontra com o de um moço sentado a duas cadeiras de distância de mim. A essa altura, termina o solo e começa a parte mais emocionante da música:
"Don't stop believin'
Hold on to the feelin'
Streetlights, people"
Como companheiros de mico, aumentamos um pouco o volume da voz.
Um sorriso de cumplicidade encerra o dueto.

Pássaros

segunda-feira, abril 30, 2018

Eu sempre fui uma admiradora do vôo dos urubus.
-Viviane, isso é urubu! - foi o que me disse um amigo quando eu, ainda na infância, chamei sua atenção para os pássaros negros que enchiam o céu. Lembro-me de não saber muito bem o que responder, então passei meu tempo pensando nas razões pelas quais a cena ficaria menos bonita por ser protagonizada por urubus. Ora, no céu não se pode ver a feiura do bicho carniceiro. Não se vê a cabeça nua, as feições assustadoras, o bico feito para dilacerar a carne. Longe disso, só se consegue ver o contraste do céu azul com as muitas manchas negras que voam como se estivessem em uma dança macabra e desorganizada. Hoje, toda vez que vejo essa dança, obrigo-me a pensar na cena que se constrói abaixo dela. Algum bicho moribundo e ferido ou já morto, deitado no chão, enquanto um redemoinho de carniceiros voa acima dele.
Os urubus anunciam a morte quando o aroma dela não consegue chegar até nossas narinas. Talvez sua dança macabra seja uma forma de demonstrar respeito ao defunto cuja carne se converterá em vida. Talvez seja um tributo à vida e morte daqueles cujo fim nunca seria anunciado, não fosse os predadores de sua carne morta e o funeral por eles encenado.
Para mim, essa ideia faz com que a cena fique ainda mais bonita.

Sobre amores e livros roubados

sábado, abril 14, 2018

Uma das coisas que eu penso em fazer antes morrer é devolver os livros que roubei para as escolas de onde os roubei.
Sim, eu era uma ladra de livros na infância.
Uma criminosa bastante habilidosa, até.
Roubei não um ou dois, mas vários livros das escolas onde estudei. Como? Experimente estudar em 7 escolas durante a vida escolar e precisar sair de várias delas sem explicações ou tempo para despedidas. Quando eu começava a sentir o cheiro da mudança, alugava os livros e, convenientemente, não tinha tempo para devolve-los.
Dessa forma, consegui manter comigo excelentes livros. Boa parte da minha atual biblioteca pessoal (que ainda cabe numa caixa de papelão) eu adquiri dessa forma criminosa e desonesta, tomando posse de bens públicos.
Hoje eu me perdoei pelos meus crimes.
Entenda: eu nunca tive muitos amigos nas escolas em que estudei. Nem tive tempo pra consolidar amizades. Os livros ocuparam esse lugar na minha infância. A descoberta dos prazeres da leitura foi também a descoberta de uma forma leve e deliciosa de encontrar refúgio. Com meus passaportes apoiados entre as pernas, eu viaja para todos os lugares possíveis, conhecia novas palavras e novos sentimentos, aprendendo a dar nome a coisas que eu nem sabia que poderiam ser nomeadas. Permitia-me sentir de tudo: ria, chorava, odiava, amava. Era tudo real e intenso demais para mim, e eu preferia considerá-los mais reais que minha própria vida.
Dessa forma, acabei criando com alguns desses livros uma relação de afeto tão forte que não me permitia separar deles. Tinha que leva-los comigo. Eis o motivo dos meu crimes.
Mas, ao longo da minha vida, fui descobrindo o prazer de conversar com alguém sobre essas obras e sentir em sua fala a mesma paixão que eu tinha. Assim, desejando cada vez mais sentir esse prazer, passei a indicar e emprestar livros para amigos. Aos poucos, minha biblioteca de livros furtados começava a diminuir à medida que eles iam sendo furtados pelas pessoas a quem eu os emprestava. Dessa vez, eu estava criando os ladrões. Mas isso n me importava muito. Eu sabia o que eles sentiam e o que os levava a fazer isso. Sentia satisfação ao saber que alguém havia se apaixonado tanto quanto eu por uma obra a ponto de nunca mais me devolvê-la. Acredito que, assim como eu, eles também descobriram mais tarde o prazer de possibilitar a outros essa paixão e acabaram tendo de se desfazer de seu objeto de amor. Exatamente como eu. Acho que amar demais tem um pouco disso: você se torna um pouco egoísta por n qrer se desfazer momento algum do objeto de amor, mas, conforme amadurece um pouco, você se dá conta de que é injusto demais prender algo tão maravilhoso só contigo e impedir que outras pessoas tenham acesso a isso. Há coisas que são boas demais para serem só nossas.