Malabarismo da vida

quarta-feira, outubro 04, 2017

Num certo dia, quando me dirigi ao banquinho de uma praça próxima a um sinal onde espero meu ônibus, percebi que o banco estava ocupado. Estranhando a situaçao, já que aquele costumava ser um espaço somente meu naquele horário, afastei as mochilas que ocupavam quase todo o banco e comecei a procurar seus donos. Nao foi difícil. Dois garotos vestidos com gorro e roupas coloridas se aproximaram rindo e começaram a preparar seu material de trabalho. Logo percebi que se tratava de dois irmãos. O mais velho, com seus 16 anos, tinha um certo olhar de uma liderança carinhosa e dava instruções ao mais novo, que tinha aproximadamente 11 anos.
O show começou. Entre as cores, chamas e risos, me senti tentada a crer que os meninos oscilavam entre artistas trabalhando e crianças em um parque de diversões. Mas não havia oscilação alguma. Eles eram os dois. Crianças e artistas. Trabalhadores e aventureiros.
Enquanto o mais velho fazia objetos dançarem num malabarismo elegante, o mais novo preparava com álcool o material para dar vida às chamas que incrementariam o show do irmão. Enquanto o fazia, o pequeno observava o mais maduro como um aprendiz observa seu mestre. Por vezes ele também ia dar seu show, bem mais tímido e discreto, sob o olhar cuidadoso do irmão. Quando terminavam uma apresentaçao, batiam palmas para si mesmos, como quem sabe que, mesmo sem o reconhecimento da plateia, merecem todo louvor por seu show. Encharcados de suor, davam algumas pausas entre as apresentações para beber água e descansar. Nesses momentos brincavam, riam, faziam piadas e ironizavam um ao outro. Ouvi o mais velho dizer, enquanto contava algumas poucas moedas, que naquela noite "estava dando".
Hoje, ao me dirigir ao mesmo banco, percebi que ele estava novamente ocupado, mas dessa vez por um casal de adolescentes com aproximadamente15 anos.
Repeti o processo: afastei as mochilas, sentei-me e os observei. Ao ouvi-los conversar, descobri o motivo pelo qual escolheram aquele lugar. Ao que parecia, a concorrência estava grande. Todos os "bons sinais" das redondezas estavam ocupados. Tiveram, portanto, que procurar outro lugar de trabalho.
O menino era o mestre. Jogava-se entre os carros com uma confiança de dar inveja. Parecia estar praticando um esporte radical. Enquanto ele lançava chamas para o alto e dançava junto com elas, a garota treinava com algumas bolas na calçada. Em determinado momento, ela foi fazer sua perfomance, ainda um pouco amadora. Conseguiu alguns fãs que a recompensaram com algumas moedas, mas nenhum a fez sorrir como seu fã, companheiro e mestre que, da calçada, a aplaudia com louvor.
Nos dois casos, as duplas de malabaristas tinham em comum muito mais que os gorros, as roupas coloridas e os tênis surrados. Faziam aquilo com quem se diverte e aprende com um quebra-cabeça difícil. Para mim, que via dos bastidores, tudo parecia um grande espetáculo. Quando o sinal fechava e eles estravam em cena, eram artistas conquistando um público, desenvolvendo uma perfomance única para aquela platéia, visto que trabalhavam com as possibilidades, adaptando-se aos imprevistos. São artistas que incomodam. Tomam o espaço público, mostram sua arte de graça e depois passam entre os carros, aplaudindo-se e esperando qua alguém contribuie para que o espetáculo não morra. Compreende-se tamanho incômodo: não estamos acostumados a receber de graça a beleza no cotidiano. É possível perceber, entre aqueles que não querem ou não podem contribir, que preferem disfarçar o olhar, evitar assistir, impedindo-se de desfrutar daquilo pelo qual não vão pagar. Mas, quando os malabaristas entram em cena, o dinheiro não é a prioridade. São artistas e precisam dos espectadores. Desejam mais apalusos que moedas. Estão num grande circo improvisado. Seu picadeiro é a rua. A lona é bordada de estrelas.
Também são trabalhadores. Treinam, cansam-se. planejam, pensam o tempo. Nesse trabalho sem garantias e regulamentações, eles fazem suas leis com seu público. Desfrutam de uma liberdade perigosa e repleta de adrenalina. Recebem tanto os elogios rápidos dos que gostaram da apresentação quanto as ameaças dos carros apressados. Quando se apresentam, jogam para cima seus desejos por aventuras, suas dificuldades, suas paixões, anseios e lutas, buscando dominá-los num malabarismo da vida. E, quando optam por estar em companhia, reinventam toda essa experiência numa relação com o outro que deixa todos esses fardos, inclusives os meus, mais leves.

Feliz dia dos pais.

sábado, agosto 12, 2017

Minha primeira lembrança de um Dia dos Pais é bastante antiga. Era um período chuvoso em São Paulo, e a escolinha onde eu estudava deu às crianças um guarda-chuva pequeno com uma mensagem de homenagem aos pais, daquelas tão comuns e melosas. Tudo deveria ser simples: eu deveria chegar em casa, entregar o brinde ao meu pai e abraça-lo, como qualquer criança normal. Mas essa é uma lembrança que eu nunca poderei ter. Pelo contrário, lembro-me do conflito que aquele guarda-chuva simples me causou. Conhecendo meu pai biológico, tão distante de mim, eu sabia que aquilo não significaria nada para ele, assim como eu provavelmente não significava. Não que ele em si fizesse muita diferença. Eu não queria dar aquela lembrancnha para ele pois, mais próximo de mim, havia um homem que eu realmente queria homenagear e presentear, mas que não tinha comigo nenhum laço de sangue. No caminho de volta para casa, de mãos dadas com minha mãe, contei minhas dúvidas para ela e, juntas, analisamos as possibilidades. Eu devia ter uns três anos de idade. Não lembro quem recebeu o presente.
Uma outra lembrança é da mesma época e, mesmo não sendo no dia dos pais em si, é do mesmo período. Sentada em frente à televisão na sala de estar, eu me vi contra a parede quando entre tantas propagandas melosas que buscavam fomentar as compras, uma homenagem me emocionou. Não lembro o que dizia na mensagem, mas por algum motivo eu comecei a segurar um choro urgente, apressado, que veio sem nenhum convite. Tão apressada quanto ele, corri para o quarto escuro da minha avó, me escondendo das pessoas que estavam na sala de estar para evitar que elas vissem minha dor. Por algum motivo eu queria escondê-la, mostrar força, fazer parecer que nada daquilo me afetava.
Quando cheguei ao Ceará, por volta dos meus 5 anos, o homem a quem eu queria dar o guarda-chuva morreu. Foi o único exemplo de homem e pai no padrão de uma "família normal" que eu tive. E ele nem sequer foi um dos meus familiares. Lembro-me de, na noite do dia em que descobri sua morte, olhar para o teto e chorar enquanto cantava uma música que minha mãe sempre cantava para mim. 
Aos doze anos, após alguns meses sem nenhum contato comigo, meu pai se sentou ao meu lado na cama e pergutou se eu sentia falta dele.
-Não posso sentir falta de algo que eu nunca tive. - respondi.

10/08/2016 - O que é História?

quinta-feira, agosto 10, 2017

Já estou acostumada com pessoas desmerecendo meu curso. Por isso, quando alguém pergunta qual é o meu curso eu já suspiro me preparando para a cara de desprezo da pessoa quando ouvir minha resposta. Mas ontem aconteceu uma coisa diferente. Uma mulher me fez a bendita pergunta. Eu respirei fundo, me preparando, como sempre. Respondi: 
"História."
Ela me olhou com uma cara de desentendida e perguntou:
"mas faz o quê?"
Tentei resumir a resposta:
"Geralmente é professor de História ou pesquisador."
Ela acenou com a cabeça e fez outra pergunta:
"Mas o que é isso?"
Eu: "Isso o quê?"
Ela: "História!"
Eu: "História."
Ela: "mas o que é isso?"
Foi aí que caiu a ficha. Ela não estava tirando uma com a minha cara ou zoando o meu curso. Ela realmente estava perguntando o que era "isso". Se alguém me perguntasse o que eu faria em uma situação dessas, eu provavelmente responderia que ficaria chateada, mas minha reação foi bem diferente da que eu imaginava. Depois de 5 segundos olhando pra cara de desentendida da moça, eu comecei a gargalhar. Ela riu comigo. Ficamos assim, como duas bobas rindo dentro do ônibus, ela pela situação constrangedora de estar perguntando o que é uma disciplina que ela com certeza estudou no Ensino Médio. Eu pela situação constrangedora de ver alguém perguntando O QUE É História. Ela n estava perguntando o que um historiador fazia, o q se estudava no curso ou coisa do tipo. Ela realmente n conseguiu associar o curso de História à ciência.
E foi assim que pela primeira vez eu me vi tentando explicar para alguém o que é História. E falhei.

Sonhos realizados.

sexta-feira, julho 28, 2017

Ele queria ser produtivo. Tinha sonhos que ele mesmo não conhecia e nem sabia o motivo. Não precisava ter motivo. Na verdade os sonhos não eram dele, mas quando não se tem sonho algum, qualquer um serve. E as regras sociais são claras: É precisar sonhar. Sem sonhos não se vive, não existe motivo para existir. Os sonhos dão direcionamento e orientação a uma vida sem sentido.
Ele sonhava. Queria tanta coisa e não queria nada. Não tinha tempo para ilusões. Na verdade, não tinha tempo nem para sonhar. Só sabia que tinha que realizar seus sonhos. Na lógica da produtividade, lazer e brincadeiras poderiam servir, afinal, produziam alguma coisa. As partidas de futebol com os amigos eram uma obrigação, pois era preciso conciliar diversão e e estudos. Diversão é produção também. Só não podia ficar parado. Tinha que fazer alguma coisa, produzir para si, produzir para os outros. Se não há trabalho, tem que se divertir com algo.  

Estudava. Era elogiado. Começou a trabalhar. Menino bom. Produtivo. Queria produzir mais. Não leu nada nas férias, droga. Não aprendeu nada diferente. Só ficou olhando para o tempo. De tanto olhar para o tempo pegou mania. Mas ninguém consegue ver o tempo, então o que ele via?

Se perdeu, coitado. Ficou louco. Agora só olha pro nada. Ou melhor, continua olhando pro tempo. Estudou demais, quem sabe? Coitado. Devia ter brincado mais, se divertido mais. Mas era tão normal, o menino. Até jogava bola com os amigos. Tinha namorada também. Não sei o que faltava. Só olha para o tempo. Perdeu todos os sonhos, coitado. Não sonha mais com nada, ou melhor, só sonha acordado. Perdeu a namorada. Não estuda mais direito, só trabalha pra comer. 

Há meses eu não via o menino.

Né que vi o tal menino anteontem, deitado em um banco de praça, agarrado a um jornal velho e olhando pro céu?! Disseram que ele estava contando as estrelas, mas ele diz que é mentira, tava era conversando com elas. E ele sabe que elas não respondem. E precisam responder? Perguntaram por que ele desistiu de todos os sonhos. Mas que sonhos? Perguntaram se ainda sonha. Sonha nada. Só quer viver. Mas como é que se vive sem sonhar? Ele não quer saber. Dizem que ficou louco. Louco nada, ficou foi são.

O menino tava rindo. Ele e as estrelas. De vez em quando fazia carinho em um gatinho que passava por ali. Depois que cansou, foi para casa sorrindo. Sentei no mesmo banco e fui tentar conversar com as estrelas também. Idiotice, elas não respondem. De repente, gostei disso. Elas não respondem, não aconselham, não ditam regras, não esperam nada. Só são bonitas, as estrelas. Não sabem o que é certo e o que é errado, não carregam com elas o peso de ter que ser alguém. Ela já são, nasceram assim, nasceram estrelas e isso basta. A gente não, nasce humano, nasce um nada, um branco, tem que crescer pra ser alguém na vida.

Sem perceber, eu tinha parado pra pensar no tempo. Fui no mesmo caminho do tal do menino. Também vou enlouquecer. Mas tô gostando de ser louco. É gostoso, dá uma sensação leve. Quero abraçar o menino, acho que agora comecei a desentender tudo. Desentender é melhor que entender. Virei discípulo do menino maluco que dizem por aí que desistiu dos sonhos. Mas era mentira. Ele desistiu mesmo foi de sonhar.

Imagine

sexta-feira, julho 28, 2017

Imagine-se acordando ao som dos pássaros de uma cicidadizinha pequena. Sentindo o cheirinho das flores, daquelas flores cujos cheiros você nem conhece. Imagine o sol nascendo por detrás das ásvores e você se espreguiçando enquanto sente os raios dele na sua pele. Imagine o seu levantar e o primeiro olhar pra a varanda cheia de uma grama verde coberta por gotinhas de água que ficaram da chuva desta madrugada. Ou não. Imagine a cidade. Uma cidade linda, cheia de gente, de sonhos, de sentimentos. Imagine-se acordando ao barulho dos carros, das buzinas, das conversas dos que passam pelas calçadas. Tanto faz.
Imagine as ruas avenidas, becos, vielas ou trilhas. Pare. Escute os sons. Imagine o riacho passando por debaixo da ponte que você atravessa. Imagine a temperatura do chão na sobra. Imagine-se deitando lá. Imagine a praia, as ondas, o vento no rosto, o som de sopros, a sensação da areia caíndo pelos dedos, o cheiro das algas. Imagine uma cachoeira. O som de água correndo e caindo, o balançar das ásrvores, o desejo de pular no rio e mergulhar até não poder mais.
Chegou a noite. Observe os bares, as pessoas conversando nas calçadas, o som da paquera de dois adolescentes, osorriso bobo na face dos apaixonados. Observe as luzes da avenida. Como os carros são rápidos!. Qantas luzes, quantos sons, quantos sonhos. Imagine se essas luzes não existissem. Imagine o céu cheio de estrelas, todas possíveis de serem vistas sem a poluição das luzes artificiais. Deite-se no chão. Observe. Suspire. Ame. Imagine a escuridão. O nada. A Solidão. Durma.

Descoberta

sexta-feira, julho 28, 2017

Primeiramente, o susto. O inesperado, de tão esperado, confunde, choca. A utopia tona-se real graças a uma ação movida pelo impulso, pelo desejo desenfreado. Foi-se o autocontrole, entreguemo-nos aos sentidos. Um segundo muda tudo, marca uma ruptura na vida com uma experiência que pode transformar o que se entende por si.
Com o choque da surpresa com o que deveria ser impossível, a razão retorna de uma só vez. Confusão e medo, desejo e querer, razão e sensibilidade. O impasse perturba a mente, o corpo e a alma - se ela existir. Os desafios se tornam quase palpáveis. O futuro depende do presente, e pode-se sentir o cheiro do arrependimento. Por outro lado, já se sente o arrependimento por não entregar-se ao agora que implora para acontecer. A mente gira junto com o quarto, as vozes, os cheiros, o imaginado, o previsto. É como estar prestes a lançar-se ao nada em um ato de suicídio: a vida inteira, o passado e aquilo que ainda está por acontecer, passa como um filme em câmera lenta diante dos olhos. Fim ou início de uma vida?
Escolhe-se o presente. Com a realização da utopia, algo já foi transformado. A própria indecisão já destrói a zona de conforto em que se vivia, despertando algo adormecido, que se queria negar a existência. Se o que era temido já aconteceu, que se possa vive-lo até o fim.
O desejo toma conta do corpo, da mente, da razão. Com a cegueira pode-se, pela primeira vez, ver tudo. Uma primeira experiência não tão boa. Gargalhadas. O corpo pede mais. Com o medo de errar mais do que se espera, impõe-se limites. Iniciam-se as descobertas. Tímidas, sutis, ainda temerosas. Prazeres suaves. Olhares. Ensinamentos. Provocações.
Não é o suficiente. Queremos mais. Queremos mergulhar no mar de pecados, de erros tão certos. Profanamos o sagrado, e nos aprofundamos em nossa profanação. Com alguma resistência, rompemos os limites há pouco impostos. Não foi uma opção, foi inevitável. O corpo ordena; obedecemos.
Um toque queima na pele. O contato arde. Embora tudo pareça preenchido pelo desejo, o medo da rejeição encontra espaço e limita as ações. Ainda assim, o encontro acontece. Um encontro com o prazer, com o carnal, com o pecado, com as deusas que já se foram e com as deusas que somos. Um encontro consigo mesma. Uma descoberta de si na descoberta do outro.
Uma, duas três, quatro vezes. Não se conta mais. Os números não podem expressar as sensações. Sons de murmúrios apressados e gemidos abafados pelo medo de acordar os que dormem no quarto ao lado. Entre os êxtases de prazer, há a preocupação com o prazer do outro. Não há indivíduos, há uma dupla que se mescla, se completam como Yin-Yang, como se o universo inteiro estivesse concentrado ali nos pontos do corpo que as mãos desbravam. Somos conquistadores, descobrindo territórios desconhecidos, adentrando as profundezas do desejo, buscando dar e receber a experiência do prazer. Somos cavaleiros, companheiros na jornada rumo ao ápice, auxiliando-nos na caminhada que nos levará ao encontro com o divino que existe em nós.
Entre as quatro paredes que nos cercam, o tempo parece parar, mas o sol nos presenteia com a luz do amanhecer que entra pela janela. O fim marca um início. Nosso quarto foi nosso céu e nosso inferno. Nele, sentimos a dor e o prazer, a alegria e o desespero, a preocupação e a confiança. Chegamos ao céu e descemos ao inferno. Poderia ter sido mais, mas foi o suficiente. E nosso céu/inferno será sempre nosso, um lugar de memória que só pode ser encontrado em nós, nas lembranças mais profundas nas quais se confundem a dor e o prazer. Lembrar machuca, é reviver o que foi único, eterno e irrepetível. Lembrar faz ressurgir os sentimentos mais intensos, mais quentes e ferozes já sentidos, que nunca poderão ser pronunciados pela boa e pura menina que me tornei.

Seres vivos.

quarta-feira, julho 19, 2017

Quando criança, ao assistir um telejornal, uma reportagem chamou minha atenção de um jeito especial. Falava de uma praça ocupada por gatinhos abandonados. Eram tantos os gatos que a praça ficava suja e com mau-cheiro. Os moradores das proximidades, incomodados com a sujeira da praça e sensibilizados com a situação dos felinos abandonados, exigiam uma ação das autoridades. Como solução, os animais foram encaminhados para adoção sob os cuidados de uma ONG que fez exames nos bichinhos e garantiu que ele fossem bem cuidados até que encontrassem um novo lar. Em seguida, os orgãos governamentais cuidaram da limpeza do local.
Horas depois, outra reportagem, coincidentemente no mesmo canal, chamou novamente minha atenção. Dessa vez, tratava-se de uma praça invadida por moradores de rua. Eram tantos moradores de rua que a praça ficava suja e com mau-cheiro. Os moradores das proximidades, incomodados com a presença de tantos "mendigos" que atrapalhavam o lazer dos que que queriam passear na praça diariamente, exigiam uma ação das autoridades. Como solução, os orgãos governamentais infomaram que os moradores de rua foram despejados um dia antes da exibição da reportagem. A praça fora limpa para o devido uso dos cidadãos de bem.

Símbolos

quarta-feira, julho 19, 2017

A foice e o martelo, cruzados,  formam o conhecido símbolo internacional dos trabalhadores. A foice, instrumento necessário para o trabalho no campo, fazendo parte do cotidiano de lutas daqueles que a utilizam para cortar a fome de suas vidas através do trabalho, representa o trabalhador agrícola. O martelo, por sua vez, representa o trabalhador insdustrial, preso à dinâmica das fabricas, integrado aos sons e cheiros do mundo urbano. Juntas, as duas ferramentas simbolizam a união daqueles que, separados pela dicotomia "campo x cidade", estão unidos como classe trabalhadora. Hoje, tal símbolo está associado diretamente à ideologia comunista e ao sonho da revolução proletária.

Em uma aula de campo em uma cidade do interior cearense, alguns colegas de turma e militantes comunistas admiraram-se ao descobrir, no Mercado Múblico Municipal, uma das ferramentas que integra o símbolo de sua ideologia. As foices, reunidas em um canto de mesa, eram feias e feitas em material enfurrajável, claramente produzidas para trabalho bruto, vendidas aos montes e por uma pechincha. Alegres, os jovens militantes tocaram, tiraram fotos, sorriram e fizeram um pequeno círculo ao redor das ferramentas e sob o olhar assustado dos que frequentavam o Mercado.

Compreende-se: nunca tinham visto uma foice.

Diálogos do capitalismo pós-moderno

domingo, julho 02, 2017

Um dos pontos mais polêmicos nas reformas trabalhistas do governo Temer diz respeito ao diálogo entre patrões e empregados. Para dar mais liberdade a esse diálogo é necessário "flexibilizar" as leis trabalhistas. As relações entre patrões e seus funcionários não podem estar engessadas sob normas legais.
No dia 28 de abril, data da primeira greve geral contra as reformas do governo Temer, algumas empresas que atuam na construção da Siderúrgica do Pecém, em São Gonçalo do amarante, encontraram um método excelente para dialogar com seus funcionários e evitar que a greve paralisasse as obras: todos os empregados do sexo masculino foram "convidados" a passar a noite do dia dia 27 para o dia 28 dentro das empresas, com direito a adicional noturno e pagamento de horas extras.
Não foi necessário verbalizar o que todos já sabiam: quem não aceitasse o convite estaria demitido até a próxima semana.
O reconhecimento do lugar de um funcionário diante do patrão, adicionado a um valor maior no contra-cheque no fim do mês, convenceu a massa de mão-de-obra.

Coincidências do cotidiano.

quinta-feira, abril 27, 2017

A música do Plantão Globo rompe a rotina. Tomando meu café, olho para o meu marido alarmado e afirmo: "algum figurão morreu".
Limpava a mesa enquanto ele corria para a sala. Calmamente, perguntei: "quem foi?"
Teori Zavascki. Em um acidente de avião.
Assistimos o Plantão Globo até o fim. Após o encerramento, meu sogro, que também estava na sala de estar, afirmou com completa convicção: "mataram".
Ele não foi o único a acreditar nisso. O suposto acidente se tornou o assunto das esquinas. As redes sociais fervilharam com charges ironizando a queima de arquivo, textos listando os motivos para um assassinato do relator da Lava Jato, lamentos e previsões. No youtube, não demoraram a aparecer os vídeos associando o acidente a conspirações Illuminati e maçônicas. No geral, quase todos pareciam concordar com uma coisa: não foi um simples acidente, seria coincidência demais.
Em meio a todo o burburinho, não pude deixar de pensar nas outras quatro pessoas mortas. No caso de um atentado contra o ministro, elas não teriam sido o alvo, seriam apenas vítimas no lugar errado e na hora errada. Ainda assim, são só as "outras quatro pessoas" nas manchetes, sem nome, sem história, sem vida. Mereceram, no máximo, 5 minutos em algum noticiário, com uma foto de cada, seus nomes e profissões. Mortos, e segundo o que alguns supõem, assassinados. O que se sabe é que a morte de alguns foi a sorte de outros.
Há algo de muito doentio em um país cujos cidadãos acreditam que podem estar sendo governados por assassinos.

Manda quem pode, obedece quem tem juízo

quarta-feira, janeiro 18, 2017

Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores, nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. E aí está a grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos - libertar-se a si e aos opressores.
Paulo Freire.

Desconfie de quem baseia seu posicionamento político-econômico e sua luta apenas em sua classe e vivência.

Em uma discussão sobre biopoder, um professor perguntou como poderíamos discutir esse assunto com alguém que deseja ser rico.  Como contribuir para que alguém se liberte de um jugo que ele  não só carrega alegremente como acredita ser seu passaporte para o topo da pirâmide meritocrática?
"Comece por mim", foi o que pensei.  Imediatamente me envergonhei. Não ingressei na Universidade para me desconstruir e militar, entrei vendo a graduação como um degrau para atingir meu objetivo de ascender na pirâmide. Não fui a única.
O sistema mais forte é aquele que faz da opressão um favor, uma dádiva para os oprimidos. Estes passam a carregar sua cruz como uma honra, suportando tudo para que, um dia, possam estar em um banquete observando a via sacra daqueles que não se esforçaram o suficiente. Parece-me inclusive, com a ideia do cristianismo de martírio em nome de Deus para que a glória seja alcançada. Mas aqui a glória é outra: o céu é o poder.
No Brasil há um ditado que aprendemos ainda crianças: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Obedecer é uma regra para que se possa mandar um dia. Ninguém gosta de obedecer, pois reconhecem que é um fardo, mas interpretam como um fardo necessário. No discurso do sistema, o poder é fruto do esforço e merecimento daqueles que estão no topo da pirâmide, e o caminho para merecer esse poder é ter juízo e obedecer - não aos homens, mas ao sistema. Nessa lógica, os pobres, que tanto apanham diariamente, sonham em ser os ricos para bater. É compreensível. Quando se acredita que bater é um direito, não é estranho que aquele que apanha queira tomar o soco inglês. É o oprimido que admira e quer ser o opressor.
E, para manter essa lógica, o sistema cuidou em deixar uma brecha, mesmo que vaga e distante, para que o os pobres possam ascender alguns andares derrubando outros, e, enquanto se esforçam para isso, sustentem a base da pirâmide. Ao ascender, o pobre vira um cidadão médio, e quer manter seu poder recém-adquirido na ilusão de ser um rico. Como novo-rico, seus interesses mudam, sua luta baseada em sua classe é outra, suas perspectivas se transformam. O oprimido passa a ser opressor. E assim, a ordem do sistema continua. Sem o apoio da base, o sistema não existiria. Não são os ricos quem sustenta o capitalismo: é o opressor que há em mim.

Os donos da luta

sábado, janeiro 07, 2017

Numa tarde qualquer, estávamos eu e alguns amigos almoçando salgadinhos na praça de alimentação de um shopping. Uma cena até comum nos shoppings de Fortaleza. Mas, diferentemente do que a maioria das pessoas gostam de conversar quando estão almoçando com amigos, conversávamos sobre política, economia e opressão do proletariado. 
Em algum momento da conversa, comentei um caso de quando trabalhei como garçonete em que uma mulher não quis pagar os 10% que costumam cobrar para os garçons. Foi então que uma amiga me interrompeu dizendo que ela também nunca paga essa cobrança injusta, já que o correto seria a empresa pagar seus funcionários. O clima na mesa mudou completamente. De repente, senti-me como que se a mesa tivesse sido divida: de um lado estava eu, que já vivi a situação discutida no pólo oposto ao dela; do outro, estava ela defendendo um direito seu, indiscutivelmente. Passamos, naquele momento, a assumir duas posições distintas: eu era a garçonete, ela era a cliente. Ao perceber que o clima mudara, ela começou a se explicar: recusar pagar a tal cobrança injusta era também uma maneira de se posicionar a favor do garçom, já que este tinha o direito se ser pago com um salário digno, não dependendo da boa vontade do cliente. Ela estava defendo o garçom, lutando pela luta dele contra a opressão do patrão que sairia ileso de qualquer conflito entre as duas partes em questão. Suspirei e perguntei a ela o que mudara quando ela havia se recusado a pagar a cobrança. Sem  obter resposta, eu mesma respondi: o garçom ficara sem o pagamento pelo trabalho de servi-la.
Esse acontecimento me lembrou as mensagens de empoderamento pintadas nos banheiros das faculdades, feitas por revolucionários de facebook que provavelmente se esqueceram que proletários limparão aquilo que eles vêem como filosofia, mas os funcionários enxergam como sujeira.
Vivemos um tempo em que, sob os ideais de revolução e empoderamento, os discursos de luta pelo proletariado e pelo povo estão cada vez mais frequentes. Mais e mais pessoas se juntam ao grupo dos que querem uma sociedade diferente, que respeite aqueles que por muito tempo foram excluídos da história. Ironicamente, os que mais ficam distantes dessa luta são as minorias de classe. As discussões sobre capitalismo, biopoder, feminismo, diversidade de gênero, etc não atingem os grupos das favelas, do interior e das escolas públicas que nunca tiveram acesso ou nunca quiseram ler livros sobre política ou economia. Esses discursos de luta geralmente ficam presos em bolhas universitárias ou coletivos de militância sem carisma algum. E o pior: quando algum pobre marginalizado se aproxima dessas discussões e acaba por expressar algum preconceito ou ignorância fruto da realidade em que vive é rotulado de fascista e reacionário, sem que alguém se preocupe em explicar ao menos do que ele está sendo acusado. Dentro da bolha, eles são ironizados como "pobres de direita", o que seria o cúmulo da burrice.
Se seguir esse caminho, a revolução não será das minorias, será de uma elite que, sem perguntar o que pensam os oprimidos, se encarregaram da missão de lutar por suas causas, considerando que sabem exatamente o que é melhor para eles. Os pobres não precisam pensar, a burguesia intelectual messiânica pensa por eles, pensa por nós. Infelizmente, isso não anda funcionando. Estamos afastando aqueles que deveriam ser os protagonistas das mudanças. 
Finalmente, ou entregamos a luta nas mãos a que ela pertence, comprando a briga e fazendo o investimento de levar a eles o que por tanto tempo lhes foi negado - o conhecimento, ou continuamos fazendo exercício de ego em nossa bolha intelectual enquanto esperamos que as minorias a invadam. Enquanto isso, os donos do poder fazem a festa.

É muita intolerância por metro quadrado

sexta-feira, janeiro 06, 2017

Um dia desses, ao voltar do restaurante universitário com alguns amigos, passei por uma situação altamente constrangedora e inesperada. Estávamos em grupo, e eu, muito próxima de uma amiga, andava de braços dados com ela enquanto ríamos de alguma piada sem graça. Ao atravessarmos a rua, um homem esbarrou em nós e, nos fitando da cabeça aos pés com expressão de nojo, falou um "é muita sapatão por metro quadrado" e se afastou rapidamente.
Após alguns segundos processando o que tinha acabado de acontecer, nossa primeira reação foi cair no riso. Eu, cristã, heterossexual, casada aos dezesseis anos, considerava-me imune a esse tipo de preconceito. Minha amiga, também hétero, ria desesperadamente do engano daquele senhor. 
Não estávamos isoladas em uma rua estranha povoada pela família tradicional brasileira. Estávamos com amigos, na Av. da Universidade, Benfica, em frente ao Centro de Humanidades, um local onde LGBT's costumam sentir-se mais livres para expressar abertamente a sexualidade muitas vezes reprimida em outros lugares. Mas naquele lugar encontramos a intolerância daquele homem antes de o encontrarmos como homem. Mal lembro da face dele, mas lembro perfeitamente das palavras e da expressão de nojo fixa em nós. Naquele momento, aquele homem mostrou-se somente em sua intolerância. Sem nome, sem família, sem religião, ele se fez conhecido unicamente como "o homofóbico". Não bastou para ele pensar coisas ao nosso respeito e nos pré-conceituar baseando-se somente em um gesto de carinho entre duas amigas. Não bastou encarar-nos com um olhar de reprovação e nojo. É a necessidade de ofender, ferir, causar alguma espécie de sofrimento, o que rege essas pessoas. Sem pregar-nos Deus, mensagens bíblicas, argumentação científica ou qualquer outra coisa, ele se contentou em ofender e sair rapidamente, ignorando o fruto do que deixou para trás.
Mais tarde, lembrei-me de um dia em que, em um ônibus, minha mãe me abraçava e brincava com meus cabelos, quando escutamos um homem que tinha acabado de descer aos gritos nos chamando de "sapatonas". Eu tinha cerca de doze anos.
Na noite de 25 de dezembro de 2016 um homem foi espancado até a morte após defender uma travesti que estava sendo agredida por dois homens numa estação de metrô de SP.
A homofobia não é um problema só para grupos LGBT, ela adoece toda a sociedade e mata todos que se opõem ao seu ódio. Enquanto ela existir, ninguém estará seguro.
Não me impressiona que, quando contamos aos nossos amigos a confusão do tal homem que esbarrou em nós, os únicos que não riram foram os homossexuais. Compreende-se: não encontraram humor algum naquilo.

Sob o jugo da felicidade

quinta-feira, janeiro 05, 2017

Fim de ano é época de festas. Estudantes estão de férias, famílias preparam a ceia e as emissoras de TV dão um up na programação. As músicas motivacionais tocam repetidamente nas rádios falando de amor, paz, prosperidade e renovação. É um momento de alegria.
Nas feiras, lojas e supermercados abarrotados as pessoas fazem filas e brigam alegremente por suas compras. É preciso comprar novas roupas, alimentos caros e especiarias para esse momento feliz. Em um mundo onde tudo é comercializável, a felicidade virou produto e pode ser comprada. Ela vem junto com o vestido novo, o peru de natal e os presentes do amigo secreto. Mas, mais do que nessas coisas em si, a felicidade está na possibilidade de mostrar aos outros o quanto se é feliz. Expor sua alegria é se autoafirmar como alguém realizado, e, portanto, nesse novo mundo de publicização do privado, não existe felicidade por si só ou em alguém sozinho. É preciso fazer ver para crer. O "ser feliz" não é um sentimento: é uma experiência que só pode ser vivenciada em grupo e pela exposição. Ela não existe em si mesma, só se faz real quando é conhecida por outrém.
Felicidade é moda. Está nos livros de autoajuda, nas propagandas e nos comerciais de TV. Vivemos o boom publicitário da felicidade. Todos querem ser felizes. Acordam para serem felizes, comem para serem felizes, dormem para ser felizes, transam para serem felizes, casam-se para serem felizes, adoram deuses em busca de uma deusa que é mais cultuada que todos os outros em nossa sociedade: a felicidade.
A existência do pólo da felicidade cria outro: a melancolia do não-feliz. Nesta cultura, ser infeliz é anormal, quase doentio. Ninguém merece ser infeliz. A infelicidade é definida desde como fruto da acomodação dos pobres de espíritos a opressão maligna. Mas é possível livrar-se dela. E é essa possibilidade que enche as prateleiras das livrarias, lota auditórios em palestras, abarrota igrejas pregando a famigerada prosperidade, e, acima de tudo, vende. A felicidade movimenta o mercado, impulsiona as engrenagens do sistema que passou a se mostrar com uma nova face: um sorriso feliz.
E é por isso que eu posso afirmar, sem dúvidas, mesmo nessa minha busca incessante pela felicidade:
Tenho pena dos felizes.

Os homens, o tempo e os ciclos.

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Os fogos anunciam: é meia-noite. Ao fundo é possível ouvir os risos alegres daqueles que saúdam o novo ano. Felicitações, promessas, lágrimas, abraços cheirando a espumante. Inicia-se um novo dia, mas não um dia qualquer. A virada da meia-noite acontece a cada 24 horas como um ciclo natural, mas a cada 365 dias  essa virada adquire um novo significado: trata-se de um ciclo dentro de outro ciclo. 
Longe da questão astronômica, estamos lidando com um ciclo mais humano que qualquer outra coisa. Os homens construíram os ciclos temporais não só de acordo com suas noções de tempo, mas também baseados em como sentem e interpretam o tempo cronológico e histórico. Os anos são lugares de memória. Trata-se de remeter um dia, uma hora, um momento a outro que já passou ou a um que ainda virá. Trata-se de localizar-se num tempo que foge e nunca se repete, de se inserir nos mistérios de Cronos. 
O tempo é um desafio para o homem, lembrando-o de que todos fazemos parte de um ciclo maior que não nos pertence e não controlamos. Precisamos, então, manter a ilusão de que podemos banhar-nos duas vezes num mesmo rio. Precisamos significar o tempo, atribuir significado e tomar posse daquilo que não nos pertence. E ressignificamos o tempo com o passar dos ciclos, porque até mesmo o domínio do pai titã é histórico. Precisamos do novo que não é tão novo assim. Precisamos de fins e inícios, de rupturas em um tempo cronológico linear. Necessitamos dos recomeços, das novas promessas, das novas esperanças, dos novos abraços, para lembrarmos que a correnteza segue e nos arrasta junto com ela sem nos perdermos nas profundezas do mar.