O show começou. Entre as cores, chamas e risos, me senti tentada a crer que os meninos oscilavam entre artistas trabalhando e crianças em um parque de diversões. Mas não havia oscilação alguma. Eles eram os dois. Crianças e artistas. Trabalhadores e aventureiros.
Enquanto o mais velho fazia objetos dançarem num malabarismo elegante, o mais novo preparava com álcool o material para dar vida à s chamas que incrementariam o show do irmão. Enquanto o fazia, o pequeno observava o mais maduro como um aprendiz observa seu mestre. Por vezes ele também ia dar seu show, bem mais tÃmido e discreto, sob o olhar cuidadoso do irmão. Quando terminavam uma apresentaçao, batiam palmas para si mesmos, como quem sabe que, mesmo sem o reconhecimento da plateia, merecem todo louvor por seu show. Encharcados de suor, davam algumas pausas entre as apresentações para beber água e descansar. Nesses momentos brincavam, riam, faziam piadas e ironizavam um ao outro. Ouvi o mais velho dizer, enquanto contava algumas poucas moedas, que naquela noite "estava dando".
Hoje, ao me dirigir ao mesmo banco, percebi que ele estava novamente ocupado, mas dessa vez por um casal de adolescentes com aproximadamente15 anos.
Repeti o processo: afastei as mochilas, sentei-me e os observei. Ao ouvi-los conversar, descobri o motivo pelo qual escolheram aquele lugar. Ao que parecia, a concorrência estava grande. Todos os "bons sinais" das redondezas estavam ocupados. Tiveram, portanto, que procurar outro lugar de trabalho.
O menino era o mestre. Jogava-se entre os carros com uma confiança de dar inveja. Parecia estar praticando um esporte radical. Enquanto ele lançava chamas para o alto e dançava junto com elas, a garota treinava com algumas bolas na calçada. Em determinado momento, ela foi fazer sua perfomance, ainda um pouco amadora. Conseguiu alguns fãs que a recompensaram com algumas moedas, mas nenhum a fez sorrir como seu fã, companheiro e mestre que, da calçada, a aplaudia com louvor.
Nos dois casos, as duplas de malabaristas tinham em comum muito mais que os gorros, as roupas coloridas e os tênis surrados. Faziam aquilo com quem se diverte e aprende com um quebra-cabeça difÃcil. Para mim, que via dos bastidores, tudo parecia um grande espetáculo. Quando o sinal fechava e eles estravam em cena, eram artistas conquistando um público, desenvolvendo uma perfomance única para aquela platéia, visto que trabalhavam com as possibilidades, adaptando-se aos imprevistos. São artistas que incomodam. Tomam o espaço público, mostram sua arte de graça e depois passam entre os carros, aplaudindo-se e esperando qua alguém contribuie para que o espetáculo não morra. Compreende-se tamanho incômodo: não estamos acostumados a receber de graça a beleza no cotidiano. É possÃvel perceber, entre aqueles que não querem ou não podem contribir, que preferem disfarçar o olhar, evitar assistir, impedindo-se de desfrutar daquilo pelo qual não vão pagar. Mas, quando os malabaristas entram em cena, o dinheiro não é a prioridade. São artistas e precisam dos espectadores. Desejam mais apalusos que moedas. Estão num grande circo improvisado. Seu picadeiro é a rua. A lona é bordada de estrelas.
Também são trabalhadores. Treinam, cansam-se. planejam, pensam o tempo. Nesse trabalho sem garantias e regulamentações, eles fazem suas leis com seu público. Desfrutam de uma liberdade perigosa e repleta de adrenalina. Recebem tanto os elogios rápidos dos que gostaram da apresentação quanto as ameaças dos carros apressados. Quando se apresentam, jogam para cima seus desejos por aventuras, suas dificuldades, suas paixões, anseios e lutas, buscando dominá-los num malabarismo da vida. E, quando optam por estar em companhia, reinventam toda essa experiência numa relação com o outro que deixa todos esses fardos, inclusives os meus, mais leves.