Sonhos realizados.

sexta-feira, julho 28, 2017

Ele queria ser produtivo. Tinha sonhos que ele mesmo não conhecia e nem sabia o motivo. Não precisava ter motivo. Na verdade os sonhos não eram dele, mas quando não se tem sonho algum, qualquer um serve. E as regras sociais são claras: É precisar sonhar. Sem sonhos não se vive, não existe motivo para existir. Os sonhos dão direcionamento e orientação a uma vida sem sentido.
Ele sonhava. Queria tanta coisa e não queria nada. Não tinha tempo para ilusões. Na verdade, não tinha tempo nem para sonhar. Só sabia que tinha que realizar seus sonhos. Na lógica da produtividade, lazer e brincadeiras poderiam servir, afinal, produziam alguma coisa. As partidas de futebol com os amigos eram uma obrigação, pois era preciso conciliar diversão e e estudos. Diversão é produção também. Só não podia ficar parado. Tinha que fazer alguma coisa, produzir para si, produzir para os outros. Se não há trabalho, tem que se divertir com algo.  

Estudava. Era elogiado. Começou a trabalhar. Menino bom. Produtivo. Queria produzir mais. Não leu nada nas férias, droga. Não aprendeu nada diferente. Só ficou olhando para o tempo. De tanto olhar para o tempo pegou mania. Mas ninguém consegue ver o tempo, então o que ele via?

Se perdeu, coitado. Ficou louco. Agora só olha pro nada. Ou melhor, continua olhando pro tempo. Estudou demais, quem sabe? Coitado. Devia ter brincado mais, se divertido mais. Mas era tão normal, o menino. Até jogava bola com os amigos. Tinha namorada também. Não sei o que faltava. Só olha para o tempo. Perdeu todos os sonhos, coitado. Não sonha mais com nada, ou melhor, só sonha acordado. Perdeu a namorada. Não estuda mais direito, só trabalha pra comer. 

Há meses eu não via o menino.

Né que vi o tal menino anteontem, deitado em um banco de praça, agarrado a um jornal velho e olhando pro céu?! Disseram que ele estava contando as estrelas, mas ele diz que é mentira, tava era conversando com elas. E ele sabe que elas não respondem. E precisam responder? Perguntaram por que ele desistiu de todos os sonhos. Mas que sonhos? Perguntaram se ainda sonha. Sonha nada. Só quer viver. Mas como é que se vive sem sonhar? Ele não quer saber. Dizem que ficou louco. Louco nada, ficou foi são.

O menino tava rindo. Ele e as estrelas. De vez em quando fazia carinho em um gatinho que passava por ali. Depois que cansou, foi para casa sorrindo. Sentei no mesmo banco e fui tentar conversar com as estrelas também. Idiotice, elas não respondem. De repente, gostei disso. Elas não respondem, não aconselham, não ditam regras, não esperam nada. Só são bonitas, as estrelas. Não sabem o que é certo e o que é errado, não carregam com elas o peso de ter que ser alguém. Ela já são, nasceram assim, nasceram estrelas e isso basta. A gente não, nasce humano, nasce um nada, um branco, tem que crescer pra ser alguém na vida.

Sem perceber, eu tinha parado pra pensar no tempo. Fui no mesmo caminho do tal do menino. Também vou enlouquecer. Mas tô gostando de ser louco. É gostoso, dá uma sensação leve. Quero abraçar o menino, acho que agora comecei a desentender tudo. Desentender é melhor que entender. Virei discípulo do menino maluco que dizem por aí que desistiu dos sonhos. Mas era mentira. Ele desistiu mesmo foi de sonhar.

Imagine

sexta-feira, julho 28, 2017

Imagine-se acordando ao som dos pássaros de uma cicidadizinha pequena. Sentindo o cheirinho das flores, daquelas flores cujos cheiros você nem conhece. Imagine o sol nascendo por detrás das ásvores e você se espreguiçando enquanto sente os raios dele na sua pele. Imagine o seu levantar e o primeiro olhar pra a varanda cheia de uma grama verde coberta por gotinhas de água que ficaram da chuva desta madrugada. Ou não. Imagine a cidade. Uma cidade linda, cheia de gente, de sonhos, de sentimentos. Imagine-se acordando ao barulho dos carros, das buzinas, das conversas dos que passam pelas calçadas. Tanto faz.
Imagine as ruas avenidas, becos, vielas ou trilhas. Pare. Escute os sons. Imagine o riacho passando por debaixo da ponte que você atravessa. Imagine a temperatura do chão na sobra. Imagine-se deitando lá. Imagine a praia, as ondas, o vento no rosto, o som de sopros, a sensação da areia caíndo pelos dedos, o cheiro das algas. Imagine uma cachoeira. O som de água correndo e caindo, o balançar das ásrvores, o desejo de pular no rio e mergulhar até não poder mais.
Chegou a noite. Observe os bares, as pessoas conversando nas calçadas, o som da paquera de dois adolescentes, osorriso bobo na face dos apaixonados. Observe as luzes da avenida. Como os carros são rápidos!. Qantas luzes, quantos sons, quantos sonhos. Imagine se essas luzes não existissem. Imagine o céu cheio de estrelas, todas possíveis de serem vistas sem a poluição das luzes artificiais. Deite-se no chão. Observe. Suspire. Ame. Imagine a escuridão. O nada. A Solidão. Durma.

Descoberta

sexta-feira, julho 28, 2017

Primeiramente, o susto. O inesperado, de tão esperado, confunde, choca. A utopia tona-se real graças a uma ação movida pelo impulso, pelo desejo desenfreado. Foi-se o autocontrole, entreguemo-nos aos sentidos. Um segundo muda tudo, marca uma ruptura na vida com uma experiência que pode transformar o que se entende por si.
Com o choque da surpresa com o que deveria ser impossível, a razão retorna de uma só vez. Confusão e medo, desejo e querer, razão e sensibilidade. O impasse perturba a mente, o corpo e a alma - se ela existir. Os desafios se tornam quase palpáveis. O futuro depende do presente, e pode-se sentir o cheiro do arrependimento. Por outro lado, já se sente o arrependimento por não entregar-se ao agora que implora para acontecer. A mente gira junto com o quarto, as vozes, os cheiros, o imaginado, o previsto. É como estar prestes a lançar-se ao nada em um ato de suicídio: a vida inteira, o passado e aquilo que ainda está por acontecer, passa como um filme em câmera lenta diante dos olhos. Fim ou início de uma vida?
Escolhe-se o presente. Com a realização da utopia, algo já foi transformado. A própria indecisão já destrói a zona de conforto em que se vivia, despertando algo adormecido, que se queria negar a existência. Se o que era temido já aconteceu, que se possa vive-lo até o fim.
O desejo toma conta do corpo, da mente, da razão. Com a cegueira pode-se, pela primeira vez, ver tudo. Uma primeira experiência não tão boa. Gargalhadas. O corpo pede mais. Com o medo de errar mais do que se espera, impõe-se limites. Iniciam-se as descobertas. Tímidas, sutis, ainda temerosas. Prazeres suaves. Olhares. Ensinamentos. Provocações.
Não é o suficiente. Queremos mais. Queremos mergulhar no mar de pecados, de erros tão certos. Profanamos o sagrado, e nos aprofundamos em nossa profanação. Com alguma resistência, rompemos os limites há pouco impostos. Não foi uma opção, foi inevitável. O corpo ordena; obedecemos.
Um toque queima na pele. O contato arde. Embora tudo pareça preenchido pelo desejo, o medo da rejeição encontra espaço e limita as ações. Ainda assim, o encontro acontece. Um encontro com o prazer, com o carnal, com o pecado, com as deusas que já se foram e com as deusas que somos. Um encontro consigo mesma. Uma descoberta de si na descoberta do outro.
Uma, duas três, quatro vezes. Não se conta mais. Os números não podem expressar as sensações. Sons de murmúrios apressados e gemidos abafados pelo medo de acordar os que dormem no quarto ao lado. Entre os êxtases de prazer, há a preocupação com o prazer do outro. Não há indivíduos, há uma dupla que se mescla, se completam como Yin-Yang, como se o universo inteiro estivesse concentrado ali nos pontos do corpo que as mãos desbravam. Somos conquistadores, descobrindo territórios desconhecidos, adentrando as profundezas do desejo, buscando dar e receber a experiência do prazer. Somos cavaleiros, companheiros na jornada rumo ao ápice, auxiliando-nos na caminhada que nos levará ao encontro com o divino que existe em nós.
Entre as quatro paredes que nos cercam, o tempo parece parar, mas o sol nos presenteia com a luz do amanhecer que entra pela janela. O fim marca um início. Nosso quarto foi nosso céu e nosso inferno. Nele, sentimos a dor e o prazer, a alegria e o desespero, a preocupação e a confiança. Chegamos ao céu e descemos ao inferno. Poderia ter sido mais, mas foi o suficiente. E nosso céu/inferno será sempre nosso, um lugar de memória que só pode ser encontrado em nós, nas lembranças mais profundas nas quais se confundem a dor e o prazer. Lembrar machuca, é reviver o que foi único, eterno e irrepetível. Lembrar faz ressurgir os sentimentos mais intensos, mais quentes e ferozes já sentidos, que nunca poderão ser pronunciados pela boa e pura menina que me tornei.

Seres vivos.

quarta-feira, julho 19, 2017

Quando criança, ao assistir um telejornal, uma reportagem chamou minha atenção de um jeito especial. Falava de uma praça ocupada por gatinhos abandonados. Eram tantos os gatos que a praça ficava suja e com mau-cheiro. Os moradores das proximidades, incomodados com a sujeira da praça e sensibilizados com a situação dos felinos abandonados, exigiam uma ação das autoridades. Como solução, os animais foram encaminhados para adoção sob os cuidados de uma ONG que fez exames nos bichinhos e garantiu que ele fossem bem cuidados até que encontrassem um novo lar. Em seguida, os orgãos governamentais cuidaram da limpeza do local.
Horas depois, outra reportagem, coincidentemente no mesmo canal, chamou novamente minha atenção. Dessa vez, tratava-se de uma praça invadida por moradores de rua. Eram tantos moradores de rua que a praça ficava suja e com mau-cheiro. Os moradores das proximidades, incomodados com a presença de tantos "mendigos" que atrapalhavam o lazer dos que que queriam passear na praça diariamente, exigiam uma ação das autoridades. Como solução, os orgãos governamentais infomaram que os moradores de rua foram despejados um dia antes da exibição da reportagem. A praça fora limpa para o devido uso dos cidadãos de bem.

Símbolos

quarta-feira, julho 19, 2017

A foice e o martelo, cruzados,  formam o conhecido símbolo internacional dos trabalhadores. A foice, instrumento necessário para o trabalho no campo, fazendo parte do cotidiano de lutas daqueles que a utilizam para cortar a fome de suas vidas através do trabalho, representa o trabalhador agrícola. O martelo, por sua vez, representa o trabalhador insdustrial, preso à dinâmica das fabricas, integrado aos sons e cheiros do mundo urbano. Juntas, as duas ferramentas simbolizam a união daqueles que, separados pela dicotomia "campo x cidade", estão unidos como classe trabalhadora. Hoje, tal símbolo está associado diretamente à ideologia comunista e ao sonho da revolução proletária.

Em uma aula de campo em uma cidade do interior cearense, alguns colegas de turma e militantes comunistas admiraram-se ao descobrir, no Mercado Múblico Municipal, uma das ferramentas que integra o símbolo de sua ideologia. As foices, reunidas em um canto de mesa, eram feias e feitas em material enfurrajável, claramente produzidas para trabalho bruto, vendidas aos montes e por uma pechincha. Alegres, os jovens militantes tocaram, tiraram fotos, sorriram e fizeram um pequeno círculo ao redor das ferramentas e sob o olhar assustado dos que frequentavam o Mercado.

Compreende-se: nunca tinham visto uma foice.

Diálogos do capitalismo pós-moderno

domingo, julho 02, 2017

Um dos pontos mais polêmicos nas reformas trabalhistas do governo Temer diz respeito ao diálogo entre patrões e empregados. Para dar mais liberdade a esse diálogo é necessário "flexibilizar" as leis trabalhistas. As relações entre patrões e seus funcionários não podem estar engessadas sob normas legais.
No dia 28 de abril, data da primeira greve geral contra as reformas do governo Temer, algumas empresas que atuam na construção da Siderúrgica do Pecém, em São Gonçalo do amarante, encontraram um método excelente para dialogar com seus funcionários e evitar que a greve paralisasse as obras: todos os empregados do sexo masculino foram "convidados" a passar a noite do dia dia 27 para o dia 28 dentro das empresas, com direito a adicional noturno e pagamento de horas extras.
Não foi necessário verbalizar o que todos já sabiam: quem não aceitasse o convite estaria demitido até a próxima semana.
O reconhecimento do lugar de um funcionário diante do patrão, adicionado a um valor maior no contra-cheque no fim do mês, convenceu a massa de mão-de-obra.