Ele queria ser produtivo. Tinha sonhos que ele mesmo não conhecia e nem sabia o motivo. Não precisava ter motivo. Na verdade os sonhos não eram dele, mas quando não se tem sonho algum, qualquer um serve. E as regras sociais são claras: É precisar sonhar. Sem sonhos não se vive, não existe motivo para existir. Os sonhos dão direcionamento e orientação a uma vida sem sentido.
Ele sonhava. Queria tanta coisa e não queria nada. Não tinha tempo para ilusões. Na verdade, não tinha tempo nem para sonhar. Só sabia que tinha que realizar seus sonhos. Na lógica da produtividade, lazer e brincadeiras poderiam servir, afinal, produziam alguma coisa. As partidas de futebol com os amigos eram uma obrigação, pois era preciso conciliar diversão e e estudos. Diversão é produção também. Só não podia ficar parado. Tinha que fazer alguma coisa, produzir para si, produzir para os outros. Se não há trabalho, tem que se divertir com algo.
Estudava. Era elogiado. Começou a trabalhar. Menino bom. Produtivo. Queria produzir mais. Não leu nada nas férias, droga. Não aprendeu nada diferente. Só ficou olhando para o tempo. De tanto olhar para o tempo pegou mania. Mas ninguém consegue ver o tempo, então o que ele via?
Se perdeu, coitado. Ficou louco. Agora só olha pro nada. Ou melhor, continua olhando pro tempo. Estudou demais, quem sabe? Coitado. Devia ter brincado mais, se divertido mais. Mas era tão normal, o menino. Até jogava bola com os amigos. Tinha namorada também. Não sei o que faltava. Só olha para o tempo. Perdeu todos os sonhos, coitado. Não sonha mais com nada, ou melhor, só sonha acordado. Perdeu a namorada. Não estuda mais direito, só trabalha pra comer.
Há meses eu não via o menino.
Né que vi o tal menino anteontem, deitado em um banco de praça, agarrado a um jornal velho e olhando pro céu?! Disseram que ele estava contando as estrelas, mas ele diz que é mentira, tava era conversando com elas. E ele sabe que elas não respondem. E precisam responder? Perguntaram por que ele desistiu de todos os sonhos. Mas que sonhos? Perguntaram se ainda sonha. Sonha nada. Só quer viver. Mas como é que se vive sem sonhar? Ele não quer saber. Dizem que ficou louco. Louco nada, ficou foi são.
O menino tava rindo. Ele e as estrelas. De vez em quando fazia carinho em um gatinho que passava por ali. Depois que cansou, foi para casa sorrindo. Sentei no mesmo banco e fui tentar conversar com as estrelas também. Idiotice, elas não respondem. De repente, gostei disso. Elas não respondem, não aconselham, não ditam regras, não esperam nada. Só são bonitas, as estrelas. Não sabem o que é certo e o que é errado, não carregam com elas o peso de ter que ser alguém. Ela já são, nasceram assim, nasceram estrelas e isso basta. A gente não, nasce humano, nasce um nada, um branco, tem que crescer pra ser alguém na vida.
Sem perceber, eu tinha parado pra pensar no tempo. Fui no mesmo caminho do tal do menino. Também vou enlouquecer. Mas tô gostando de ser louco. É gostoso, dá uma sensação leve. Quero abraçar o menino, acho que agora comecei a desentender tudo. Desentender é melhor que entender. Virei discÃpulo do menino maluco que dizem por aà que desistiu dos sonhos. Mas era mentira. Ele desistiu mesmo foi de sonhar.