Nua

segunda-feira, maio 28, 2018

Eu me despi pra você.
Tantas e tantas vezes
Na minha mente, nas minhas palavras, nos meus sonhos.
Eu revelei minha intimidade, meus segredos, minhas imperfeições
E senti vergonha.
Senti - e ainda sinto - vergonha por ter me despido aos olhos de um desconhecido
Eu deveria ter corrido, fugido, me resguardado.
Mas fiquei nua
E suportei sozinha o desconforto de me sentir suja
Herege, pecadora, imunda
Mas continuei nua
Fui me despindo das vestes da alma ao me imaginar me despindo das do corpo
Com a angústia prendendo o suspiro e travando o gemido na garganta
Aquela mistura estranha de prazer e medo que se abraçam, se enamoram, se trançam
transam
e dão à luz a perdição, o horror a culpa e o deleite
Você não se despiu pra mim
Observou minha nudez, minha vergonha, meu temor
Minha alma nua foi teu toféu - nem sequer precisou ver o corpo
A alma bastava porque era tudo
E o corpo você já possuía - era teu da maneira mais profunda
Nos meus sonhos secretos você o tocava - provoca arrepios, suspiros, taquicardia
Éramos duas almas completamente imersas em nossa perversão
sacrilégio, profanação do corpo sagrado, blasfêmia contra a criação
abominação
meu corpo te pertencia, mas o teu nunca foi meu
e no desespero de ter me doado eu despertava
vestida, limpa, pura
Só o suor molhando os lençois e meus pêlos eriçados denunciavam meu crime
Testemunhas da minha perdição secreta
Traidores ingratos no meu próprio corpo
Traição!
 Mostravam-me que ele já não me pertencia - perdi meu controle
 Na insolência de fazer uso dele sem que me pertencesse, fugi da culpa
Uma criminosa incomum
Não suportei o peso do meu delito
Era teu: que fosse a ti entregue
Mas a recusa foi minha pena
Bastava-te possuí-lo, não precisava fazer uso
E eu, infratora, abracei minha pena
Condenada a guardar tua posse
Como cuidadora da terra que nunca vê o dono
Permaneceremos na eterna espera - eu e tua terra
 Eu, tua terra
Sempre para ti despida.

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