Pássaros
segunda-feira, abril 30, 2018
Eu sempre fui uma admiradora do vôo dos urubus.
-Viviane, isso é
urubu! - foi o que me disse um amigo quando eu, ainda na infância,
chamei sua atenção para os pássaros negros que enchiam o céu. Lembro-me
de não saber muito bem o que responder, então passei meu tempo pensando
nas razões pelas quais a cena ficaria menos bonita por ser protagonizada
por urubus. Ora, no céu não se pode ver a feiura do bicho carniceiro.
Não se vê a cabeça nua, as feições assustadoras, o bico feito
para dilacerar a carne. Longe disso, só se consegue ver o contraste do
céu azul com as muitas manchas negras que voam como se estivessem em uma
dança macabra e desorganizada. Hoje, toda vez que vejo essa dança,
obrigo-me a pensar na cena que se constrói abaixo dela. Algum bicho
moribundo e ferido ou já morto, deitado no chão, enquanto um redemoinho
de carniceiros voa acima dele.
Os urubus anunciam a morte quando o aroma dela não consegue chegar até nossas narinas. Talvez sua dança macabra seja uma forma de demonstrar respeito ao defunto cuja carne se converterá em vida. Talvez seja um tributo à vida e morte daqueles cujo fim nunca seria anunciado, não fosse os predadores de sua carne morta e o funeral por eles encenado.
Para mim, essa ideia faz com que a cena fique ainda mais bonita.
Os urubus anunciam a morte quando o aroma dela não consegue chegar até nossas narinas. Talvez sua dança macabra seja uma forma de demonstrar respeito ao defunto cuja carne se converterá em vida. Talvez seja um tributo à vida e morte daqueles cujo fim nunca seria anunciado, não fosse os predadores de sua carne morta e o funeral por eles encenado.
Para mim, essa ideia faz com que a cena fique ainda mais bonita.
0 comentários