Eternos.

sábado, junho 16, 2018

Nós sabíamos que não seria pra sempre. Soubemos disso desde o momento em que decidimos que queríamos que fosse. Mas, mesmo sabendo disso, desafiamos a razão  e nos opusemos à ordem das coisas.  
Sabíamos que não seria eterno. Ainda assim, compartilhamos sorrisos discretos e trocamos olhares nem tão discretos assim. Em nossa rebeldia, decidimos correr riscos aos risos abafados. Companheiros em nosso mundo próprio, deixamos nossa fantasia fluir e vivemos essa peça romântica como atores que se apaixonam pelo roteiro.
Sabíamos que não poderia durar, mas insistimos em viver cada momento como nosso romance particular com final imprevisível.  Mas era previsível.  Não duraria, não poderia. Mas construímos sonhos bobos e cuspimos promessas ao vento. Sabendo que não seria eterno, juramos que seria e assinamos contratos. Escolhemos cuidadosamente os nomes dos filhos amados que jamais teríamos.  E os amamos. Amamos cada detalhe daquelas crianças abortadas ainda no pensamento.
Mesmo sabendo que não seria para sempre, investimos tudo nesse projeto falido. Rimos de piadas sem-graça, fizemos guerra de travesseiro e assistimos ao nascer do sol com uma admiração silenciosa e compartilhada pela natureza.
Resistimos à força do tempo. Quando a tempestade chegava e o teto ruía, dormíamos ao relento e nos aquecíamos com o calor do nosso corpo. No dia seguinte, reconstruíamos tudo com promessas  e ilusões,  mesmo sabendo que um dia a matéria-prima acabaria. 
E acabou. A matéria-prima, o teto, o tempo, o romance, a peça, nós. Não foi eterno porque não poderia ser. 
Mas nós fizemos ser eterno enquanto pôde. 

You Might Also Like

0 comentários