Pai

quarta-feira, agosto 12, 2020

 Dia dos pais é um negócio engraçado, né. É quando eu lembro q tem gente q tem pai. De verdade mesmo. E é quando eu lembro que já houve uma época em que eu queria muito ter um. Sentia falta, essas coisas.

No primeiro dia dos pais de que tenho lembrança eu ganhei um guarda-chuva na creche p/ dar para o meu pai (antes q me perguntem q diabo de creche dá um guarda-chuva, era em SP). Eu quis dar o presente pro vizinho. Não era aleatório, o vizinho era um baita paizão pra mim.

Lembro de um outro dia dos pais em que estava passando uma propaganda daquelas bem melosas. Abraço, feliz dia dos pais, pai é isso, pai é aquilo. Eu chorei. Alguém comentou. Eu disse que era mentira, limpei o rosto e saí de fininho para o quarto. Chorei no escuro deitada no chão. Era uma dor minha e eu me envergonhava dela. Eu devia ter uns 3 anos, considerando que vim para o Ceará aos 4.  Parabéns pai, vc foi a razão do meu primeiro choro escondido. É um hábito que se repete bastante até hj, viu?

Acho que percebi que estava começando a ignorar completamente essa falta estranha de presença paterna aos 11 anos, quando recebi um recadinho e um bombom barato na escola. Mais um presentinho para os pais. Usei o recadinho para marcar um livro e comi o bombom.

Cerca de um ano depois meu pai foi preso. Só uma vez fui visitá-lo. Uma conversa estranha com uma grade no meio, coisa bizarra. Sem "eu te amo", sem lamentos, sem saudades. Ninguém sabia muito bem o que dizer.

Quatro anos depois meu pai me levou até o altar. De braços dados, caminhada lenta, tapinha no ombro do meu noivo. Um detalhe essencial, mas quase decorativo. Foi como usar um troço azul para dar sorte. Ou o véu, que por alguma razão tinha que estar lá. 

Dá última vez que o vi, descobrimos q tínhamos o número de telefone um do outro. Ele perguntou com uma sensibilidade que eu nunca imaginaria vir dele por quê, então, nós nunca nos falávamos. Não houve resposta em voz alta, mas nós dois sabíamos qual era. Acho que foi o momento mais íntimo que tive com meu pai. Também acho que foi quando percebi que, de alguma maneira, eu o havia perdoado. Mesmo que ainda me revolte pensar nas várias mulheres grávidas que foram abandonadas e nos meus irmãos que, assim como eu, cresceram estranhando os comerciais de margarina.

É por isso que hoje eu fiz um textão de dia dos pais. Meu primeiro e talvez o último. Não sinto nada. Não tenho raiva, não há tristeza. No máximo aquela melancolia gostosa ao lembrar do quanto já senti falta. Minha revolta é bem pouco pessoal, para ser sincera. Faço parte de um número bem grande nas estatísticas.

Ao meu pai, meu mais sincero Feliz dia dos Pais. Porque acredito que é o que ele deve ser para meus três irmãos que, diferente dos outros e de mim, não vão rir com absoluto entendimento das piadas de que pai é lenda.