A Geração de vidro
segunda-feira, maio 28, 2018
Já ouvi diversas vezes sobre um certo "problema geracional"
contemporâneo. Ora, sendo parte dessa geração, decidi entender melhor
qual seria esse problema. Percebi que parece que uma das principais
características que identificam nessa geração - a minha - é a
sensibilidade. Seríamos uma juventude adulta extremamente sentimental,
com uma carga absurda de subjetividade; uma geração que sofre,
emociona-se e se enraivece excessivamente: a "geração de vidro". Ora,
ora, o vidro. Um troço difícil de se lidar, não é mesmo? Uma coisa que
nos causa temor porque quebra com facilidade. Mas não é só isso: o
vidro, ao ser quebrado, faz muito barulho e se espalha de forma que pode
vir a ferir pessoas próximas. Essa é a razão pela qual eu achei o nome
perfeito. Acho que somos, de fato, a geração de vidro.
Mas vamos lá:
a principal característica atribuída a nós - a sensibilidade exarcebada
- me causa uma certa desconfiança. Entendo a sensibilidade como uma
experiência histórica vivenciada de forma complexa. Isso mesmo, para
mim, as pessoas vivem a sensibilidade de formas diferentes ao longo do
tempo. E falo aqui de sensibilidade no singular como forma de
generalização, mesmo. O mais correto seria falar de sensibilidadES, sim.
Mas, quando ressaltam o quanto somos sensíveis, estão falando de várias
sensibilidades como uma só porque o que querem dizer é que somos
sensíveis das mais variadas e possíveis formas: emocionalmente,
academicamente, profissionalmente, fisicamente, psicologicamente....
querem dizer que somos pessoa de vidro: facilmente quebráveis. Talvez
estejam certos. Mas minha confusão reside no fato de que essa habilidade
de sentir de maneira tão intensa não me parece ser uma característica
que teve estréia na nossa geração, assim como não é uma característica
exclusiva do vidro ser facilmente quebrável. Mas claro, isso pode sim
ser algo inédito que minha geração está experimentando, por enquanto não
sou capaz de saber. De fato, pode ser que nossa neecessidade de dar
visibilidade aos problemas que deveriam ser extintos tenha, para alguns,
criado os problemas. O que eu quero dizer é que se você não entende que
algo é um problema, o problema não existe para você. Mas, ao
descobrí-lo, ele acaba sendo criado na sua experiência. Nesse sentido,
nós teríamos criado problemas novos e novas formas de se sensibilizar
com eles, de sofer por eles. Faz algum sentido ou é pós-moderno demais?
Tanto faz, só estou fazendo suposições na madrugada, me deixem perder o
bom senso de análise.
Mas, vamos direto ao ponto do que eu quero
dizer, amém? Para mim, mera mortal que fica observando os conflitos
geracionais porque na verdade não se sente parte de geração alguma
(embora esteja me obrigando a escrever esse texto usando mt a terceira
pessoa do plural, mas acho q devo tentar resolver isso na terapia) a
grande característica dessa geração e a que nos faz semelhantes ao vidro
não é a facilidade de se espedaçar, mas a capacidade de fazer barulho,
chamar atenção, acordar os vizinhos, causar vergonha. E sinto que é esse
o grande incômodo que causamos. Como assim? Nós nos demos voz.
Agarramos e defendemos o direito ao grito de dor e de sofrimento, à
exposição do sentimento. Na verdade nós nos viciamos em nos expor, daí
nossa outra semelhança com o vidro: a transparência. Pois bem, essa
transparência e esse barulho agoniante que fazemos ao nos quebrar causa
um incômodo muito grande. Em quem? Sinceramente, ando percebendo uma
grande reação por parte da geração 1990 (falo da geração de adultos dos
anos 1990, não da que nasceu nessa década), mais do que de qualquer
outra. A necessidade que essa geração tem de expor nosso sentimentalismo
reforça aquela minha ideia de que esse sentir demais não é uma
característica nossa. Parece-que a geração 90 sofreu tanto quanto nós
com suas experiências, que viveram tão intensamente e dolorosamente
quanto nós. Mas uma diferença é clara: ao louvar tanto a capacidade que
tiveram de lidar com os problemas sem escândalo e criticar nosso
barulho, eles acabam parecendo os grandes afetados, mas, como mudos que
receberam tardiamente a voz, ainda não sabem pronunciar bem as palavras.
Deixem-me tentar ser mais clara: aparentemente, o direito ao grito de
dor não foi dado a eles. Sentiram e sofreram calados, alcançaram suas
conquistas sem poder expressar o que sentiram no processo. Agora, estão
tendo de lidar com uma geração que grita, chora e se expõe. O resultado é
uma espécie de conflito constante nos mais variados espaços. E, eu
sinto dizer, parece haver um certo sentimento de recalque por parte da
geração de jovens adultos daquela década, daí essa necessidade
incontrolável de dizer que passaram por tais coisas sem fazer barulho.
Nós, a geração de vidro, fazemos barulho demais.
Mas, nesse caso,
não poderíamos ser a geração de alumínio? Não. O alumínio faz barulho,
mas continua inteirinho. Nós nos quebramos memo. A gt se estraçalha. A
cabeça fica desgraçada, precisamos de terapia, remédios e raio que o
parta. O problema é que, ao nos quebrarmos, nossos cacos atingem quem
nos rodeia. No fim, estamos todos sempre sangrando ou sujos de sangue.
Uma geração difícil de se lidar, essa. Mas até que é bonita. No fim, é a
que as donas de casa usam pra servir água às visitas.
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