Degustadores
quarta-feira, junho 27, 2018
E, num ímpeto, eu decidi entregar a minha vida numa bandeja.
Não era uma iguaria muito bonita e nem era um prato muito arrumado. Não deu tempo de arrumar. Era bagunçado e tinha gosto de desespero. Eu sabia que ela não iria querer, mas me arrisquei. Não estava pronto, mas eu não podia esperar mais tempo. Era o que eu tinha para servir naquele momento.
Eu ofereci supondo que ela provaria e ficaria mais tempo. Com isso, abri mão de todas as minhas crenças - e da possibilidade de esperar a massa cozinhar um pouco mais para servi-la a um outro frequês que chegasse mais tarde, na hora certa, ou que tivesse paciência para esperar.
Mas eu queria ela. Era ela. O momento era aquele. E ela não esperaria.
Então eu peguei a panela fervente e joguei o conteúdo ardente e meio cru na bandeja. Eu sabia que ela não terminaria de degustar aquilo, mas precisava que ela ficasse mais um pouco enquanto provava.
E ela não ficou.
A recusa me tirou o fôlego. Chorei quando a porta bateu: ela se foi e nem pagou a conta.
Mas voltei para a cozinha. Dentro de alguns minutos, joguei fora a massa crua (e agora fria), tirei alguns ingredientes da dispensa e acendi o fogão. Temperando tudo com lágrimas, recomecei a cozinhar para o freguês certo, mas sabia que não daria tempo. Eu tinha estragado o prato que era dele.
Mas não fazia diferença. Naquele momento, só a ação de cozinhar importava.
E eu estava cozinhando.
Mais uma vez.
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