Descoberta
sexta-feira, julho 28, 2017
Primeiramente, o susto. O inesperado, de tão esperado, confunde, choca. A utopia tona-se real graças a uma ação movida pelo impulso, pelo desejo desenfreado. Foi-se o autocontrole, entreguemo-nos aos sentidos. Um segundo muda tudo, marca uma ruptura na vida com uma experiência que pode transformar o que se entende por si.
Com o choque da surpresa com o que deveria ser impossível, a razão retorna de uma só vez. Confusão e medo, desejo e querer, razão e sensibilidade. O impasse perturba a mente, o corpo e a alma - se ela existir. Os desafios se tornam quase palpáveis. O futuro depende do presente, e pode-se sentir o cheiro do arrependimento. Por outro lado, já se sente o arrependimento por não entregar-se ao agora que implora para acontecer. A mente gira junto com o quarto, as vozes, os cheiros, o imaginado, o previsto. É como estar prestes a lançar-se ao nada em um ato de suicídio: a vida inteira, o passado e aquilo que ainda está por acontecer, passa como um filme em câmera lenta diante dos olhos. Fim ou início de uma vida?
Escolhe-se o presente. Com a realização da utopia, algo já foi transformado. A própria indecisão já destrói a zona de conforto em que se vivia, despertando algo adormecido, que se queria negar a existência. Se o que era temido já aconteceu, que se possa vive-lo até o fim.
O desejo toma conta do corpo, da mente, da razão. Com a cegueira pode-se, pela primeira vez, ver tudo. Uma primeira experiência não tão boa. Gargalhadas. O corpo pede mais. Com o medo de errar mais do que se espera, impõe-se limites. Iniciam-se as descobertas. Tímidas, sutis, ainda temerosas. Prazeres suaves. Olhares. Ensinamentos. Provocações.
Não é o suficiente. Queremos mais. Queremos mergulhar no mar de pecados, de erros tão certos. Profanamos o sagrado, e nos aprofundamos em nossa profanação. Com alguma resistência, rompemos os limites há pouco impostos. Não foi uma opção, foi inevitável. O corpo ordena; obedecemos.
Um toque queima na pele. O contato arde. Embora tudo pareça preenchido pelo desejo, o medo da rejeição encontra espaço e limita as ações. Ainda assim, o encontro acontece. Um encontro com o prazer, com o carnal, com o pecado, com as deusas que já se foram e com as deusas que somos. Um encontro consigo mesma. Uma descoberta de si na descoberta do outro.
Uma, duas três, quatro vezes. Não se conta mais. Os números não podem expressar as sensações. Sons de murmúrios apressados e gemidos abafados pelo medo de acordar os que dormem no quarto ao lado. Entre os êxtases de prazer, há a preocupação com o prazer do outro. Não há indivíduos, há uma dupla que se mescla, se completam como Yin-Yang, como se o universo inteiro estivesse concentrado ali nos pontos do corpo que as mãos desbravam. Somos conquistadores, descobrindo territórios desconhecidos, adentrando as profundezas do desejo, buscando dar e receber a experiência do prazer. Somos cavaleiros, companheiros na jornada rumo ao ápice, auxiliando-nos na caminhada que nos levará ao encontro com o divino que existe em nós.
Entre as quatro paredes que nos cercam, o tempo parece parar, mas o sol nos presenteia com a luz do amanhecer que entra pela janela. O fim marca um início. Nosso quarto foi nosso céu e nosso inferno. Nele, sentimos a dor e o prazer, a alegria e o desespero, a preocupação e a confiança. Chegamos ao céu e descemos ao inferno. Poderia ter sido mais, mas foi o suficiente. E nosso céu/inferno será sempre nosso, um lugar de memória que só pode ser encontrado em nós, nas lembranças mais profundas nas quais se confundem a dor e o prazer. Lembrar machuca, é reviver o que foi único, eterno e irrepetível. Lembrar faz ressurgir os sentimentos mais intensos, mais quentes e ferozes já sentidos, que nunca poderão ser pronunciados pela boa e pura menina que me tornei.
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