É muita intolerância por metro quadrado
sexta-feira, janeiro 06, 2017
Um dia desses, ao voltar do restaurante universitário com alguns amigos, passei por uma situação altamente constrangedora e inesperada. Estávamos em grupo, e eu, muito próxima de uma amiga, andava de braços dados com ela enquanto ríamos de alguma piada sem graça. Ao atravessarmos a rua, um homem esbarrou em nós e, nos fitando da cabeça aos pés com expressão de nojo, falou um "é muita sapatão por metro quadrado" e se afastou rapidamente.
Após alguns segundos processando o que tinha acabado de acontecer, nossa primeira reação foi cair no riso. Eu, cristã, heterossexual, casada aos dezesseis anos, considerava-me imune a esse tipo de preconceito. Minha amiga, também hétero, ria desesperadamente do engano daquele senhor.
Não estávamos isoladas em uma rua estranha povoada pela família tradicional brasileira. Estávamos com amigos, na Av. da Universidade, Benfica, em frente ao Centro de Humanidades, um local onde LGBT's costumam sentir-se mais livres para expressar abertamente a sexualidade muitas vezes reprimida em outros lugares. Mas naquele lugar encontramos a intolerância daquele homem antes de o encontrarmos como homem. Mal lembro da face dele, mas lembro perfeitamente das palavras e da expressão de nojo fixa em nós. Naquele momento, aquele homem mostrou-se somente em sua intolerância. Sem nome, sem família, sem religião, ele se fez conhecido unicamente como "o homofóbico". Não bastou para ele pensar coisas ao nosso respeito e nos pré-conceituar baseando-se somente em um gesto de carinho entre duas amigas. Não bastou encarar-nos com um olhar de reprovação e nojo. É a necessidade de ofender, ferir, causar alguma espécie de sofrimento, o que rege essas pessoas. Sem pregar-nos Deus, mensagens bíblicas, argumentação científica ou qualquer outra coisa, ele se contentou em ofender e sair rapidamente, ignorando o fruto do que deixou para trás.
Mais tarde, lembrei-me de um dia em que, em um ônibus, minha mãe me abraçava e brincava com meus cabelos, quando escutamos um homem que tinha acabado de descer aos gritos nos chamando de "sapatonas". Eu tinha cerca de doze anos.
Na noite de 25 de dezembro de 2016 um homem foi espancado até a morte após defender uma travesti que estava sendo agredida por dois homens numa estação de metrô de SP.
A homofobia não é um problema só para grupos LGBT, ela adoece toda a sociedade e mata todos que se opõem ao seu ódio. Enquanto ela existir, ninguém estará seguro.
Não me impressiona que, quando contamos aos nossos amigos a confusão do tal homem que esbarrou em nós, os únicos que não riram foram os homossexuais. Compreende-se: não encontraram humor algum naquilo.
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