Feliz dia dos pais.

sábado, agosto 12, 2017

Minha primeira lembrança de um Dia dos Pais é bastante antiga. Era um período chuvoso em São Paulo, e a escolinha onde eu estudava deu às crianças um guarda-chuva pequeno com uma mensagem de homenagem aos pais, daquelas tão comuns e melosas. Tudo deveria ser simples: eu deveria chegar em casa, entregar o brinde ao meu pai e abraça-lo, como qualquer criança normal. Mas essa é uma lembrança que eu nunca poderei ter. Pelo contrário, lembro-me do conflito que aquele guarda-chuva simples me causou. Conhecendo meu pai biológico, tão distante de mim, eu sabia que aquilo não significaria nada para ele, assim como eu provavelmente não significava. Não que ele em si fizesse muita diferença. Eu não queria dar aquela lembrancnha para ele pois, mais próximo de mim, havia um homem que eu realmente queria homenagear e presentear, mas que não tinha comigo nenhum laço de sangue. No caminho de volta para casa, de mãos dadas com minha mãe, contei minhas dúvidas para ela e, juntas, analisamos as possibilidades. Eu devia ter uns três anos de idade. Não lembro quem recebeu o presente.
Uma outra lembrança é da mesma época e, mesmo não sendo no dia dos pais em si, é do mesmo período. Sentada em frente à televisão na sala de estar, eu me vi contra a parede quando entre tantas propagandas melosas que buscavam fomentar as compras, uma homenagem me emocionou. Não lembro o que dizia na mensagem, mas por algum motivo eu comecei a segurar um choro urgente, apressado, que veio sem nenhum convite. Tão apressada quanto ele, corri para o quarto escuro da minha avó, me escondendo das pessoas que estavam na sala de estar para evitar que elas vissem minha dor. Por algum motivo eu queria escondê-la, mostrar força, fazer parecer que nada daquilo me afetava.
Quando cheguei ao Ceará, por volta dos meus 5 anos, o homem a quem eu queria dar o guarda-chuva morreu. Foi o único exemplo de homem e pai no padrão de uma "família normal" que eu tive. E ele nem sequer foi um dos meus familiares. Lembro-me de, na noite do dia em que descobri sua morte, olhar para o teto e chorar enquanto cantava uma música que minha mãe sempre cantava para mim. 
Aos doze anos, após alguns meses sem nenhum contato comigo, meu pai se sentou ao meu lado na cama e pergutou se eu sentia falta dele.
-Não posso sentir falta de algo que eu nunca tive. - respondi.

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