Os homens, o tempo e os ciclos.
quarta-feira, janeiro 04, 2017
Os fogos anunciam: é meia-noite. Ao fundo é possível ouvir os risos alegres daqueles que saúdam o novo ano. Felicitações, promessas, lágrimas, abraços cheirando a espumante. Inicia-se um novo dia, mas não um dia qualquer. A virada da meia-noite acontece a cada 24 horas como um ciclo natural, mas a cada 365 dias essa virada adquire um novo significado: trata-se de um ciclo dentro de outro ciclo.
Longe da questão astronômica, estamos lidando com um ciclo mais humano que qualquer outra coisa. Os homens construíram os ciclos temporais não só de acordo com suas noções de tempo, mas também baseados em como sentem e interpretam o tempo cronológico e histórico. Os anos são lugares de memória. Trata-se de remeter um dia, uma hora, um momento a outro que já passou ou a um que ainda virá. Trata-se de localizar-se num tempo que foge e nunca se repete, de se inserir nos mistérios de Cronos.
O tempo é um desafio para o homem, lembrando-o de que todos fazemos parte de um ciclo maior que não nos pertence e não controlamos. Precisamos, então, manter a ilusão de que podemos banhar-nos duas vezes num mesmo rio. Precisamos significar o tempo, atribuir significado e tomar posse daquilo que não nos pertence. E ressignificamos o tempo com o passar dos ciclos, porque até mesmo o domínio do pai titã é histórico. Precisamos do novo que não é tão novo assim. Precisamos de fins e inícios, de rupturas em um tempo cronológico linear. Necessitamos dos recomeços, das novas promessas, das novas esperanças, dos novos abraços, para lembrarmos que a correnteza segue e nos arrasta junto com ela sem nos perdermos nas profundezas do mar.
0 comentários