Os donos da luta
sábado, janeiro 07, 2017
Numa tarde qualquer, estávamos eu e alguns amigos almoçando salgadinhos na praça de alimentação de um shopping. Uma cena até comum nos shoppings de Fortaleza. Mas, diferentemente do que a maioria das pessoas gostam de conversar quando estão almoçando com amigos, conversávamos sobre política, economia e opressão do proletariado.
Em algum momento da conversa, comentei um caso de quando trabalhei como garçonete em que uma mulher não quis pagar os 10% que costumam cobrar para os garçons. Foi então que uma amiga me interrompeu dizendo que ela também nunca paga essa cobrança injusta, já que o correto seria a empresa pagar seus funcionários. O clima na mesa mudou completamente. De repente, senti-me como que se a mesa tivesse sido divida: de um lado estava eu, que já vivi a situação discutida no pólo oposto ao dela; do outro, estava ela defendendo um direito seu, indiscutivelmente. Passamos, naquele momento, a assumir duas posições distintas: eu era a garçonete, ela era a cliente. Ao perceber que o clima mudara, ela começou a se explicar: recusar pagar a tal cobrança injusta era também uma maneira de se posicionar a favor do garçom, já que este tinha o direito se ser pago com um salário digno, não dependendo da boa vontade do cliente. Ela estava defendo o garçom, lutando pela luta dele contra a opressão do patrão que sairia ileso de qualquer conflito entre as duas partes em questão. Suspirei e perguntei a ela o que mudara quando ela havia se recusado a pagar a cobrança. Sem obter resposta, eu mesma respondi: o garçom ficara sem o pagamento pelo trabalho de servi-la.
Esse acontecimento me lembrou as mensagens de empoderamento pintadas nos banheiros das faculdades, feitas por revolucionários de facebook que provavelmente se esqueceram que proletários limparão aquilo que eles vêem como filosofia, mas os funcionários enxergam como sujeira.
Vivemos um tempo em que, sob os ideais de revolução e empoderamento, os discursos de luta pelo proletariado e pelo povo estão cada vez mais frequentes. Mais e mais pessoas se juntam ao grupo dos que querem uma sociedade diferente, que respeite aqueles que por muito tempo foram excluídos da história. Ironicamente, os que mais ficam distantes dessa luta são as minorias de classe. As discussões sobre capitalismo, biopoder, feminismo, diversidade de gênero, etc não atingem os grupos das favelas, do interior e das escolas públicas que nunca tiveram acesso ou nunca quiseram ler livros sobre política ou economia. Esses discursos de luta geralmente ficam presos em bolhas universitárias ou coletivos de militância sem carisma algum. E o pior: quando algum pobre marginalizado se aproxima dessas discussões e acaba por expressar algum preconceito ou ignorância fruto da realidade em que vive é rotulado de fascista e reacionário, sem que alguém se preocupe em explicar ao menos do que ele está sendo acusado. Dentro da bolha, eles são ironizados como "pobres de direita", o que seria o cúmulo da burrice.
Se seguir esse caminho, a revolução não será das minorias, será de uma elite que, sem perguntar o que pensam os oprimidos, se encarregaram da missão de lutar por suas causas, considerando que sabem exatamente o que é melhor para eles. Os pobres não precisam pensar, a burguesia intelectual messiânica pensa por eles, pensa por nós. Infelizmente, isso não anda funcionando. Estamos afastando aqueles que deveriam ser os protagonistas das mudanças.
Finalmente, ou entregamos a luta nas mãos a que ela pertence, comprando a briga e fazendo o investimento de levar a eles o que por tanto tempo lhes foi negado - o conhecimento, ou continuamos fazendo exercício de ego em nossa bolha intelectual enquanto esperamos que as minorias a invadam. Enquanto isso, os donos do poder fazem a festa.
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