Abismo
quinta-feira, junho 02, 2011
Meus pés seguem, passo a passo, cada vez mais rápido. Toco o rosto com minhas mãos gélidas e sinto o suor frio como gelo, mesmo assim continuo.
Minha mente procura pensamentos, frases para dizer. Meu cérebro se pergunta porque estou seguindo essa direção, o que estou fazendo.
É como um empurrão, como se braços me jogassem sempre à frente. Tento controlar-me, mas logo desisto. "É isso que quero, sim, é isso. Por que lutar contra mim mesma?". Sigo.
Procuro aproveitar cada segundo, cada fantasia da minha mente, cada sonho que, no fundo, eu sempre soube que são apenas pesadelos disfarçados. Por não saber o que esperar quando te olhar nos olhos novamente, tento me concentrar nas inúmeras vezes que corri esse mesmo percurso. Não tenho essa capacidade. Tantas coisas passam pela minha mente rapidamente que é impossível concentrar-me em apenas um pensamento.
Me apresso conforme chego mais perto de meu destino, do fim de uma história marcante linda, perfeita. Meu coração bate cada vez mais rápido. Perco a consciência.
Bato três vezes à porta na esperança de não precisar chamar pelo teu nome. Espero. Nada, nenhum som, nenhum só ruído. Chamo o teu nome. Um tremor percorre meu corpo. De repente, sinto uma vontade súbita de que você não esteja presente. Escuto. Novamente, NADA!
Me indicam uma pequena escadaria. Subo cada degrau numa calma irreal. Sinto um coração apressado, irritado, inquieto, saindo por minha boca. Chego afinal ao meu destino. As paredes giram. O pequeno coração ingênuo, agora já louco, anseia por ti. Novamente, grito teu nome com a voz sufocada. Escuto tua voz ao longe... Sinto-me cair. Apoio-me na parede, fecho os olhos, respiro. Escuto tua voz, -linda, ecoante- dessa vez ao meu lado.
Me obrigo a olhar seu rosto, mas não me atrevo a encarar teus olhos. Me impressiono com a frieza de um timbre que sempre adorei, que em inúmeras vezes eu sorria quando escutava. Um timbre que transformava meus dias, que transformou minha vida. Minto.
Me viro. Paro com as mãos na escada e respiro. Um "thau" ainda engasgado em minha garganta. Escuto um "thau" despreocupado ao longe, mesmo sabendo que estava ao meu lado.
Agora todos os sons, todas as lembranças, estão manchados por uma fumaça negra. Percebo então meu coração criança e inquieto, -dessa vez silencioso e parado, quieto, sofrido...
Não sinto dor, não sinto nada. Me sinto morta. Forço as lágrimas que tantas vezes segurei, a sairem. Toco meus olhos, nenhuma umidade. Tento parar, mas já não consigo. Vejo que meus pés ainda seguem atordoados, mas agora para outro lugar.
Encorajo-me a continuar a andar, mas meus pensamentos já sumiram. A vida se recusa a me tomar de volta. Perco as forças. "Não irei lutar contra mim mesma".
E sigo para o que antes fora marcas de um lindo passado, de uma linda história. Sigo para as âncoras que me seguraram quando já navegava em favor da maresia. Sigo a procura da luz, e tento me desfazer do abismo que já me tomou por completo. Do que abismo que hoje sou eu.
Viviane Teixeira


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