Sobre História e Esperança

quarta-feira, janeiro 02, 2019

Em uma das aulas de estágio IV, um estudante fez uma intervenção bastante esperançosa de q a humanidade vem evoluindo. Depois q o garoto concluiu, abri espaço na aula para discutir historicamente a noção de uma evolução da humanidade e de como isso vem sendo repensado. Tudo ótimo, até que encarei a turma e abaixei o pincel com o mesmo sentimento de frustração que vi no rosto daqueles que me olhavam. O silêncio era incômodo de tão cortante. O clima esperançoso q havia sido criado pela fala do garoto com a ideia de evolução tinha sido destruído. E eu me senti culpada. Se havia uma coisa que eu não havia esperado ao iniciar o estágio, era aquele momento.
Corta.
Uma discussão com colegas de curso. Falávamos sobre natureza, injustiças, felicidade, humanidade, política, esperança. Depois de eu me exaltar um pouco na minha fala, uma amiga me olhou com calma dizendo "Viviane, mas se tu pensa tanto assim, pq vc continua brigando por isso? Se vc acha q n tem jeito, pq se desgastar lutando? Pra q militar, pra q discutir, pra q sofrer tanto por isso?"
Corta
Lendo Quotidiano e Poder, da historiadora Maria Odila, um trecho do escrito marcou-me de forma especial. No texto, Odila falava das professoras que eram criticadas e punidas por ensinar meninas a ler e escrever quando deviam ensinar a coser e bordar. O momento em que eu fazia aquela leitura era bem delicado para mim. Pós vitória de Jair Messias Bolsonaro (n é necessário mais nenhum cuidado com os algoritmos) e de td o q ele representa. Foram vitoriosas, nas urnas, as ideias absurdas com as quais ele foi eleito.
Ler aquilo naquele momento fez com q eu sentisse uma alegria imensa.
Ora, as pessoas costumam notar meu suposto pessimismo, meu pavor, minha raiva de injustiças, e alguns sabem bem que muitas dessas coisas q me marcam minhas interações são fruto da minha relação com a História. Mas foi ali, lendo aquele trecho, q me dei conta que também foi pela minha relação com a História q desenvolvi praticamente toda a esperança q tenho hoje. Irônico? Talvez.
Encerremos os cortes aqui.
Ser um bom historiador e ter esperança não é só possível como é necessário.
Estudar história é sempre doloroso para qualquer um q se permita sentir. Tocamos nas feridas da vida. Desvirginamos donzelas memórias, sacras crenças, consagradas fés. Lidamos com a vida, com a humanidade, e poucas coisas são tão assustadoras quanto o elemento humano. Daí, precisamos ser curiosos e... esperançosos. É preciso ter esperança de achar as coisas, entendê-las, fazê-las compreensíveis a outros. Somos artistas fazendo tudo para que nossa arte não seja só vista, mas sentida. Precisamos tocar. Temos deveres, assumimos responsabilidades com o conhecimento que construímos. Nunca é fácil. Isso nos torna verdadeiros militantes, profetas gritando no deserto em alto e bom senso para as areias.
Mas narramos nossas profecias conjugando verbos no pretérito. As areias não podem ouvir o q dizemos, muito menos entende-las nesse tempo verbal tão estranho para ser profético.
Precisamos ter esperança de que não falamos só para areias. Falamos para gente. De gente. E somos gente. Nossos deuses são gente, nossas crenças são de gente, nossa fé é de gente, nosso amor é de gente. Não podemos justificar nada com seres divinos, com intervenções celestiais. Nas nossas profecias só cabe gente. E isso é desesperador. É preciso ter esperança para vencer o desespero.
Mas gente muda. Não evolui, mas muda. E o mundo muda pq é feito por gente. Somos humanos, e nossa humanidade dá sentido a tudo à nossa volta.
Mudamos, e com essas mudanças vêm novos problemas, novos desafios, novas causas, novas responsabilidades. Mudam nossos inimigos (sempre humanos, mesmo que desumanizados), mudam nossos gritos de guerra, transforma-se nosso campo de batalha. Transformamos a própria luta. Coisas pelas quais brigávamos de repente já não faz tanto sentido. Outras coisas parecem mais urgentes, mais injustas, mais necessárias.
Nossa esperança nunca pode ser a de que todos os problemas serão resolvidos, mas a de que sempre teremos povo para batalhar. Sempre teremos os nossos de armas prontas no campo de batalha. Avançaremos porque nunca estamos sós, mesmo q nosso passo seja lento.
O tempo muda, as causas podem até ser outras, mas nós sempre estaremos lá. Eles também. O choque vai continuar a existir, mesmo que as armas mudem. Eles permanecem. Nós também. Não deixaremos de existir. Sempre estivemos aqui para gritar pelo que é necessário gritar, estaremos daqui há sabe-se lá quanto tempo. Nossa existência incomoda, e que bom isso.


Lutaremos pelas causas de agora. No futuro, ainda estaremos lá, ensinando a ler quando nos mandaram ensinar a coser e bordar.

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