Lotação Nordestina
quarta-feira, julho 11, 2012Cidade pequena do litoral cearense, nordeste brasileiro. Cidadezinha de caboclos e caboclinhas, de sonhos e promessas. Aquelas cidadezinhas onde TUDO o q os moradores precisam fazer, a não ser cortar capim e dormir, têm de ser feito na Sede Local do município.
Sexta-feira. Dia de feira na Sede Local. Ônibus começando a lotar. Dinheirinho suado no bolso dos caboclos que querem fazer compras baratas, economizar ao máximo. Todos conversam, contam como foi a semana, as novas malandragens dos filhos, o novo namorado da filha...
- Ontem um sinhô bem casado me chamou pra trabaiá nas obras da casa dele
- Cumpadre José? Mas como é que tá seu filho, aquele mocinho que foi estudar na cidade?
- e o sinhô foi, cumpadi?
- Tu acredita que meu cachorro morreu atropelado? Meus meninos choraram tanto...
- Quioquê? O pagamento era pequeno demais. Num dava nem pra começar as obra!
Ônibus, já lotado, pára no ponto. Todos os passageiros se olham. Sobem mais três pessoas. Começam os chingamentos com o motorista.
Aos poucos, os chingamentos param e começam os comentários, os comentários vão passando para as conversas anteriores ao mesmo tempo que a velocidade do ônibus diminui. O ônibus para. Gritos começam. O ônibus está tão lotado que as pessoas ñ caem pq ñ tem para onde cair. Sempre tem alguém a menos de um dedo de distância.
As pessoas no ponto olham, fazem cara de desgosto, parecem decidir um pouco, e finalmente, para delírio dos passageiros, recusam o ônibus.
No meio do suor resultante do calor das pessoas, do cansaço, da irritação, alguém faz uma piada:
- Motorista, se o sinhô parar pra mais alguém, o trocador vai ter que descer pra dar espaço!
E meio às risadas, outra passageira retruca:
- Se o trocador descer, eu que sento no lugar dele! Vou bem deixar cadeira vaga pros outros?!
Aos poucos, os risinhos tímidos cessam. Silêncio.
Começa uma nova discussão: Afinal, quem teria o direito de sentar no lugar do trocador?
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